A DITADURA DA BUNDA

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Vi um documentário de alguns artistas e escritores falando sobre a bunda, diziam como essa parte do corpo feminino afeta o comportamento e cultura brasileira. Realmente é difícil tirar da cabeça do brasileiro a bunda e, retirar das bundas de muitas brasileiras seu cérebro.

Certa vez, uma moça ficou interessada num rapaz, bem como, querendo um relacionamento mais duradouro e monogâmico além das baladas e finais de semana (desejo e escolha dela). A primeira conversa foi pela net, e sem nunca terem conversando pessoalmente, enviou a ele fotos apenas de calcinha, ao que o rapaz ficou perturbado, primeiro com a beleza e possível rigidez de sua retaguarda, depois, com a maneira dar sua intimidade a conhecer sem nunca terem se encontrado. Não que ele não tenha gostado, mas o efeito no relacionamento que nem havia começado deu uma murchada. E se houve estímulo da parte dele em incentiva-la a fazer isso, ficou claro para os dois quais eram suas intenções e desejos, e quanto a isso, não deveria haver motivo para decepção de ambos.

O foco aqui não é sobre o que se mostra ou deixa de mostrar, o que se faz ou não com o corpo. Acho bonito, tenho padrão próprio de beleza, tanto em mulheres quanto em homens, respeito e estimulo totalmente as liberdades e escolhas individuais – isso é questão de foro íntimo, cada um decida o que tornará público ou não, e quem não gostar, chore na cama que é mais quente. Questiono o peso e a prioridade que se dá as nádegas em detrimento do que vai dentro da caixa encefálica. O que não entendo é algumas mulheres reclamarem que está faltando homem, mas, sua beleza e juventude está sendo usada para atrair homens tão ou mais fúteis que elas. Juízo de valores a parte, concorda que para alguém que pretende um relacionamento além de sexo, antes de chamar atenção (somente) para as curvas vívidas, floridas e sem guardrail – que provável e futuramente tomarão linhas retas, quadradas, até perder o encanto, poderia chamar mais atenção por outras características, como por exemplo, um bom e inteligente diálogo?

Aliás, sobre o “belo”, quando Vinicius de Morais disse para as feias o desculparem, pois beleza é fundamental, certamente não deixou a bunda de fora de seu pensamento, mas, o buraco de seu raciocínio era mais em cima, o poeta dizia sobre enxergar beleza em tudo, do maravilhar-se com a complexidade do simples, do ficar perplexo diante daquilo que palavras não podem exprimir, tanto que diz: “que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de flor”.

Gabriel, o pensador, nos anos de 1990, compôs a música “lôraburra”, muitas pessoas o criticam por achar que ele foi preconceituoso contra as loiras, mas para isso é só ver toda a letra e prestar atenção, e constatar que não é esse o caso. Na primeira estrofe diz:

Existem mulheres que são uma beleza,
mas quando abrem a boca, hum, que tristeza,
Não é o seu hálito que apodrece o ar,
o problema é o que elas falam que não dá pra aguentar.
Nada na cabeça, personalidade fraca, tem a feminilidade
e a sensualidade de uma vaca.
Produzidas com roupinhas da estação,
que viram no anúncio da televisão.
Milhões de pessoas transitam pelas ruas,
mas conhecemos facilmente esse tipo de perua,
bundinha empinada pra mostrar que é bonita
e a cabeça parafinada pra ficar igual paquita.

Imagino algumas mulheres, se pudessem colocariam em seu RG não uma foto ¾ de seu rosto, mas uma foto A4 de sua bunda; onde deveriam assinar, colocariam as medidas do quadril e bustos; na digital, linhas nanométricas de estrias; no campo naturalidade, se tem ou não silicone; onde declara doador ou não de órgãos e tecidos; doa tudo, menos a bunda, pois esta quer levar intacta para o além, com a ordem explícita e irrevogável de acondicionarem seu corpitio no caixão, de bruços, com a bunda, literalmente, virada para a lua.

Voltando ao documentário sobre a identidade brasileira, mesmo entre os escritores e artistas citados e entrevistados, suas obras, tempo e vidas não gira em torno de uma bunda ou várias delas, pelo contrário, foram e são pensadores que produziram e contribuíram muito com a arte e cultura do Brasil, a exemplo de Vinicius de Morais. A falta de democracia em nosso país é evidente e superabunda em tudo. Além da tirania das bundas, vemos outra ditadura, agora na música, onde o sertanejo universitário tornou-se em absolutismo musical e cultural. Mais uma vez: não sou contra isso, outro dia fui numa boate desse estilo musical em Goiânia com alguns amigos, e curti muito.

Como que um país vai pra frente se a ditadura na música, dança, tv, literatura, revistas e pensamento manipulam as massas, fazendo olhar e apontar somente pra trás e para baixo? Vide a música oficial da Copa de 2014 com Jennifer Lopez, Claudia Leitte e Pitbull, reafirmado ao mundo inteiro os estereótipos que criamos sobre nós mesmos. Vi alguns “experts” da publicidade e empreendedorismo chamando tais estereótipos de: marca. What? Marca? Só se for de uma bolada na cara. Aliás, sobre a Copa, vide tudo que políticos bundões – que não honram ‘as calças’ que deveriam tampas suas vergonhas, têm feito por trás dos panos na Copa, nem se importam mais em não tampar a cara e mostrar somente suas bundas escrotas.

Entende onde quero chegar? Que a democracia contemple os abundados, os pós-bundados, os desbundados e anti-bundados, os que não tem “nadica de nádegas“, os que curtem Rock, música clássica, forró, bossa nova, sertanejo, enfim, em todas as áreas, sejamos democráticos e que valorizemos mais a diversidade cultural com inúmeros gêneros, estilos, gostos, bem como, as artes plásticas, cinema, educação, conhecimento, além da superficialidade de coisas efêmeras, sensoriais, futebolísticas, carnavalescas, valeskas e animalescas.

E se Carlos Drummond de Andrade disse que a bunda é engraçada, sorri, que são duas luas gêmeas, ondas batendo numa praia infinita, que a bunda é bunda e redunda, vejamos quem é Drummond e tantas outras coisas sobre as quais ele falou. Evidentemente, Drummond, jamais cometeria o deslize de dizer que burrice, ignorância e estupidez são qualidades, da mesma forma, não diria que não observava e se inspirava em uma bunda passando alegre e harmoniosa pelo calçadão de Copacabana. É aí que não entendo a falta de democracia e prioridade em nossa nação. Mas agora entendo porque Rachel Sheherazade sofreu a perseguição que sofreu por emitir uma opinião (não que não tenha bunda), e Popozuda tem o sucesso que tem, e diz o que diz (não que não tenha cérebro). Depois desse documentário, convenço-me definitivamente que no Brasil bunda é documento, atestado, publicado, registrado, objeto de fé e veneração.

O que mais acho interessante é que em qualquer sistema ditatorial, os maiores oprimidos são os que exercem o poder. Os maiores dominados são os dominadores, estes não tem opção, vivem em função de seus mundicos governados por um regime duríssimo e sem oposição, onde apenas um decide por todos, e quem não se submeter que sofra as penalidades. Triste é quando os ditadores e ditadoras perdem o poder, perdem os holofotes e flashes, seus governos caem, literalmente. Já não há quem os obedeça, não há quem as deseje como antes, através de golpes seguidos de golpes, o poder muda de mãos e bundas, e como disse o poeta, o mesmo que houvera escrito que a bundas são engraçadas: “a festa acabou, e agora José?”

Diante desse quadro social da retaguarda brasileira, outro dia ouvi uma professora ironicamente dizendo: “eu deveria de malhado bunda ao invés de fazer curso superior”. Conheço mulheres que malham bunda, perna e tudo mais, mas estudam, trabalham, pensam, etc, cuidar do corpo e torná-lo mais bonito é inteligente e saudável, se puder fazer os dois, ótimo! Mas priorize a segunda opção, com o tempo a bunda cai, mas os benefícios ficam.

E quanto a você, abaixo ou não a ditadura? E se não concorda com o teor do artigo, não tem problema, o importante é dar liberdade ao outro expressar seu pensamento.

© Lucianno Di Mendonça
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Para assistir ao documentário: clique aqui

ESPIRITUALIDADE CRISTOCÊNTRICA

Christ-Carrying-The-Cross-1564                            Pieter the Elder Bruegel: Christ Carrying the Cross 1564

A alguns dias, vindo de Goiânia sentido ao interior de Goiás, onde moro, conversava com um amigo sobre a dificuldade que os cristãos enfrentam quando a centralidade de Cristo na espiritualidade atual. Apesar de não ser cristão, meu amigo frequenta reuniões evangélicas a mais de 50 anos, mas nunca entendeu o evangelho puro e simples conforme a Bíblia o apresenta. Dizia-me que agora, “finalmente” encontrou um lugar, uma religião em que se fala de caridade, amor ao próximo, família, atualidades e temas “relevantes”, e melhor, não fica falando das “bobagens” da Bíblia e que Jesus morreu para nos salvar. Tentava me convencer que minha pregação é ultrapassada demais, radical demais, bíblica demais, que eu devia ter como referencia certo pastor televisivo que tirou o bigode que ensina sobre “família e temas atuais”. Por outro lado, tentei lhe mostrar como tirar Jesus do centro da Bíblia é uma desonestidade espiritual e intelectual com as Escrituras, pois, esta tem uma harmonia, uma linha racional clara, um contexto imediato e geral, onde o foco principal do livro sagrado do cristianismo é a pessoa de Cristo, e este crucificado. Sair desse foco é constituir-se falso profeta, falso pastor, falso pregador. Dizia-lhe que a questão não é a pessoa falar de família, passos para vitória, como conquistar bênçãos financeiras e espirituais, para isso, basta o “pastor” se tornar um palestrante motivacional, militante político, professor, membro de ONG, do Lions, Rotary, etc. Tudo isso é legítimo, e muitas dessas atividades contribuem com a sociedade, mas, jamais essa pessoa poderia abrir a Bíblia, ler um texto e, dizer que está ensinando o cristianismo em nome do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.

Isso me fez lembrar de duas frases, uma de Martinho Lutero, outra de Billy Graham, respectivamente: A Bíblia não é nem passada, nem moderna; a Bíblia é eterna”; e, “a Bíblia é mais atual do que o jornal que irá circular amanhã”. Paulo alertou a Timóteo o que aconteceria nos últimos tempos:

Sabe, porém, isto, que nos últimos dias sobrevirão tempos penosos, pois os homens serão amantes de si mesmos, gananciosos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a seus pais, ingratos, ímpios, sem afeição natural, implacáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando-lhe o poder (…) sempre aprendendo, mas nunca podendo chegar ao pleno conhecimento da verdade. (1Tm 2.1-5, 7)

Estamos falando de uma dificuldade atual, mas historicamente, esse quadro vem se desenhando ao longo dos séculos, não irei buscar tais referencias para não sair da clareza e objetividade pedida para o texto. Apenas lembrar dois pontos mais recentes:

  1. Revolução Industrial – a efervescência econômica e industrial do séc. XVIII influenciou a cultura ocidental e aos poucos as mentes das pessoas foram sendo moldadas em função do materialismo, indistintamente de classe social. Apenas para citar um exemplo, outro dia, um professor e coordenador de um curso que faço, disse que as pessoas devem escolher suas profissões de acordo que aquilo que mais vai lhes render dividendos, e olha que é uma professor universitário.
  1. Neopentecostalismo – a partir da segunda metade do séc. XX, movimentos religiosos, especialmente evangélicos, começam ganhar notoriedade ensinando que, se a pessoa é filha de Deus, logo, deve fazer por merecer e requerer o melhor de Deus para essa vida, entenda “melhor” como acúmulos e ostentação de riquezas materiais. Tal movimento, no início – como disse o filósofo Sérgio Portella, partia da máxima “somos bons porque somos poucos”, agora mudou para “somos bons porque somos muitos”.

Ano passado fiz 15 anos de caminhada cristã. Os primeiros 10 anos foram tentando aprender o que a Bíblia diz sobre Jesus com pastores perversos que estavam mais preocupados com seu bem estar, conquistas materiais, crescimento numérico e financeiro de sua igreja, alguns até bem intencionados, mas ignorantes. Sou um sobrevivente de uma guerra religiosa e covarde que mata espiritualmente milhões de pessoas no Brasil. O cristianismo tupiniquim majoritariamente está sem Cristo. A cruz virou artigo de moda, acessório de espiritualidade mórbida, relicário de ídolos vazios. Há uma expressão em latim, dita por Erasmo de Rotterdam representando o Renascimento, e dita igualmente por Reformadores como Lutero: ad fontes, que significa: “às fontes”. Veja o início do Salmo 42: “Assim como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus!” Correntes das águas na Vulgata Latina é ad fontes, ou seja, o salmista suspira é pela FONTE que dá acesso a Deus. Se um cristão suspira pelo Eterno, igualmente suspira pela maravilhosa e assombrosa Palavra de Deus. O que sair dessa relação não passa de emocionalismo pedante, piegas, tosco e raso.

E qual é o centro das escrituras? Qual é a maior revelação do amor de Deus? Deixemos Alan Brizotti em seu livro Identidade Cristã citando outros autores dizer:

“A cruz é o símbolo da fé cristã, da igreja cristã, da revelação de Deus em Jesus Cristo. Aquele que compreende corretamente a cruz compreende a Bíblia e compreende a Jesus”. (p. 160)

E Brizotti continua fazendo referência a outro escritor:

“Na teologia histórica cristã a morte de Cristo é o ponto central da história. Para lá todas as estradas do passado convergem; e de lá saem todas as estradas do futuro”. (p. 160)

 Não sem razão Jesus disse: “se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, do seu interior correrão rios de água viva.” Numa época onde o ateísmo militante é uma das ‘religiões’ que mais cresce no Brasil. Num tempo onde o humanismo, materialismo, teologia da prosperidade, autoajuda religiosa, liberalismo teológico, pós-modernismo e pós-cristianismo imperam e atacam o cristianismo ortodoxo por todos os lados, voltarmo-nos para a espiritualidade Cristocêntrica e fazer voz com os poucos que ainda guardam a palavra do testemunho de Deus é vital para cumprirmos nossa missão de pregar o EVANGELHO DE CRISTO a todas as nações.

© Lucianno Di Mendonça
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[Texto que compõe as provas para o aproveitamento de créditos para o curso de Teologia na Faculdade Teológica Sul Americana em Londrina]

QUIÉN SOY YO

Saudável-pra-cachorro

Já latiram, zoaram, relincharam e berraram que sou um animal. É verdade. Irracional? Penso… que não. Alguém disse que “a vida não é nada mais que uma explosão ocasional de risos sobre um interminável lamento de dor”. Essa frase tem uma verdade que me incomoda… e faz rir.

Não gosto desses animais que o tempo todo dizem que está tudo bem, alto astral, se melhorar vira festa, sempre sorrindo, rolando na lama, focinho empinado, ao cumprimentar dão as patas olhando para outro lado, com aquele mal cheirinho de superioridade. Parece que têm algo a esconder, andando, trotando, nadando, dirigindo, tocaiando os mais avoados e apavorados. Seres de quatro patas rastejantes, criaturas com asas aviltantes. Velozes de duas pernas que não chegam a lugar algum. Irracionais que só pensam ser o número um.

Sou dependente existencial. Não sou bem aceito na sociedade. Se fico a vontade causo desconforto, se almoço gero coceira, se vou fazer caminhada para perder peso pisam na minha cabeça. Só de me olharem sentem asco e repugnância, quando me encostam se lavam com álcool. Alguns sentem ânsia de vômito só de imaginarem que estou por perto. Queria que soubessem que não tenho culpa por ser assim. Volta e meia despejam-me de meu lar jogando-me na privada. Será que eles acham que não tenho família? Por acaso sou algum espécime de cocô para darem descarga em mim?

Sou feio, disforme, desproporcional, arrasto mais que ando, minha cor predominante é cinza para o lado de morto, mais enrugado que shar-pei. Sou mal compreendido, rejeitado, mal-amado. Até fizeram uma homenagem para mim, mas achei que foi deselegante, pois, batizaram uma doença com meu nome. Minha irmã está esperando nenéns, serão centenas de meninos e meninas, mas o médico disse que pessoas como ela não resistem o pós parto e morrem. O que será de meus sobrinhos órfãos nesse mundo cão?

A maior causa de morte infantil é coceira. Muitos quando pequenos, ainda destreinados e inocentes ficam em regiões muito suscetíveis a patas e unhas imensas de nossos inimigos, então nossas criancinhas são dilaceradas sem piedade. Ao mesmo tempo em que nos matam, sem eles não vivemos. O mundo é muito cruel.

Não gosto de chocolate, futebol, festas, odeio cerveja e pizza, abomino banho, minha maior alegria é dar voltinha de carro principalmente se vou na janela, adoro dormir na cama da dona da minha residência debaixo de edredom em tempinho frio curtindo filmes da Pixar em 3D. Quando saio de minha casa, amo contemplar a natureza, às vezes fico estático e absorto deslumbrado com sua beleza inebriante por horas e horas. Contudo, o que mais gosto é de sangue. Sou compulsivo por sangue, se estou banqueteando passo a noite e o dia todo, as vezes vários dias, só paro quando estou a ponto de explodir. Sou tão diferente que quando sinto-me saciado dizem que estou ingurgitado.

INGURGITADO É A MÃE!

Sangue humano é uma comida ruim, perigosa e contaminada, pois, o coração de onde jorra o alimento é sujo, bombeia ódio, amargura, intolerância, preconceito e ignorância. Evito pratos que vão sangue de gente, e quando acontece tenho que tomar Estomazil e Omeprazol, não poucas vezes fui parar no hospital. Certa vez vomitei tanto, senti náuseas, com o corpo tão inchaço e fadigado que tive que fazer hemodiálise. Minha mãe com sua preocupação, levou-me num dos analistas mais eminentes da praça, o Dr. Artrópode Exoesqueleto, fui examinado em várias sessões, mas farei como Cazuza, “vou pagar a conta do analista pra nunca mais ter que saber quem eu sou”.

Não tenho amor-próprio, gosto mais das cachorras que de mim, quando pego no pé dalguma solta por ai, não largo mais. Outro dia fui requisitar asilo político na Sociedade Protetora dos Animais e meu pedido foi indeferido sob a justificativa de que sou um animalzinho de quingentésima categoria e que estão em guerra contra nossa classe. Sai daquela espelunca de cães devoradores revoltadíssimo, cuspindo sangue. Vou fundar a Sociedade Protetora da Sociedade Protetora, serão convidados somente os desvalidos, enjeitados, invisíveis sociais para fazer parte do conselho deliberativo. Abaixo a repressão!

Será que algum dia alguém terá estima por mim ao ponto de ter-me por estimação? Gostaria muito de saber de Leonardo Da Vinci estava pensando em meus iguais quando disse: “chegará um dia no qual os homens conhecerão o íntimo dos animais, e nesse dia, um crime contra um animal será considerado um crime contra a humanidade”. Ah, como queria apenas por um dia, minuto ou segundo que alguém se colocasse em meu lugar, então saberiam o quão difícil e indefinível é saber quem sou. Então, aqueles aos quais chamamos humanos conheceriam a humanidade daqueles aos quais chamam animais.

Outro dia resolvi suicidar. Escrevi um bilhete aos meus familiares, pedi perdão a minha mãezinha, disse que os amo muito, que não chorem minha falta, limpei as lágrimas, elevei os olhos aos montes e perguntei “de onde me virá o socorro?” Com muita demora e dificuldade saí de minha casa em direção a rua, pelo caminho vi minha infância, amigos, o campo de pêlos onde jogávamos bola e bete, a árvore onde a sua sombra chupávamos laranjinhas de sangue de gato, um filme passou na minha frente. Pensei: “o plano é que se não me esmagarem pelos pneus dum carro, serei fritado no asfalto quente… adeus mundo cruel”.

Mas para minha surpresa, no meio da caminhada, na beirada do meio-fio quando ia saltar do precipício, o tempo fechou, raios e violentas trovoadas, toró d’água, e para piorar, a prefeitura interditou a rua para fazer manutenção no sistema de esgoto dos humanos. Meus planos foram por água abaixo; Algo mais forte que minha fortaleza de carapaça reclusa de vaidades doentias impediu-me de cometer aquele ato.

Até aquela tarde em que fora arrastado por todos os meus cantos e entornos mais profundos, minha vida era um lamento interminável de dor… Mas hoje acorreu-me outro contorno para minha existência, grudei na ponta do rabo daquele cachorro farejador de carniça do Sr. Manoel da Feira, fiz tanta coceira, que o fiz correr em volta de seu rabo freneticamente, enquanto eu ria descontroladamente.

Hoje foi meu dia de explosão de risos!

Quem eu sou? Outro dia passeando pelos corredores da igreja, alguém recitou algo dum poeta chamado Álvaro de Campos que dizia:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo

Enfim, carrapato, dizem que sou, muitos sentem ódio alguns pena, mas o que “os que dizem” falam de si mesmos? Estou exausto de querer me ver no mural dos olhos dos que dizem. Finalmente, estou aprendendo a gostar de ser… apenas. Seria essa a quintessência duma criatura única num universo plural?

© Lucianno Di Mendonça
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MAIS AMOR COM AS COBRAS

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Que em 2014 você tenha mais amor ao lidar com as cobras. Saiba, elas não são ruins como imaginamos. Você não é tão bom como imagina ser. Tenha mais sorrisos por coisas simples e boas lágrimas pelo que realmente importa. Ficarei com saudades da Popeta (cobrinha da foto). Que no próximo ano, Popeta e meus amigos tenham boa caminhada pelos vales profundos, noites em claro e dias escuros da alma. Sobretudo, momentos inesquecíveis ao lado de pessoas insubstituíveis.

© Lucianno Di Mendonça
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Publicado originalmente no facebook em 31/12/2013

SÓ NÃO SE SABE FÉ EM QUE

245-Os Paralamas Do Sucesso - Selvagem 1986

Os Paralamas do Sucesso em Alagados dizem:

A esperança não vem do mar
Nem das antenas de TV
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê

Quanto mais vejo fé nos religiosos, especialmente os declaradamente cristãos, mais gostaria de saber, fé em quê? Que arte desalmada e sem graça é essa de viver da fé que não se sabe fé em que? Só de alguém dizer que tem “muita fé” já é um claríssimo indicativo que essa pessoa não tem a mínima noção do que está dizendo.

Acha que estou exagerando? Faça algumas perguntas básicas, como por exemplo: no que você crê? Porque? Como? O que é fé? Como pode ter certeza do que crê? Qual a razão de sua fé? Quem é Deus? Como Ele se revela a você? Porque a Bíblia é a palavra de Deus? As Escrituras foram adulteradas para atender interesses políticos/religiosos? Como você sabe? Deus se revela somente através desse livro? Porque Ele não se revela noutras literaturas que requerem para si a mesma autoridade? Você ama e deseja conhecer esse livro que dizes ser inspirado por Deus ou nada se interessa por estudá-lo? Porque você sabe que Ele existe? Deus fala com você? Sério? Como? Não fala? Como não? Porque és cristão? Houve um dia em que entendeste algo sobre Jesus que fez total diferença na sua vida ou simplesmente é cristão porque é? O que Jesus quis dizer sobre novo nascimento? Você nasceu de novo? Será? Quem é Jesus? Porque os ateus estão errados e você está certo? Será que não estás enganado em tudo que crê? Nunca sentistes vergonha em abrir a boca para falar de alguém que não conhece? Já sentiu-se aliviado(a) em reconhecer que precisa retirar a máscara, descer do salto do orgulho na festa das vaidades, despir-se da fantasia, se ajoelhar solitário no jardim da humildade à margem das águas serenas da vida e implorar o favor divino?

Diga que as respostas devem ser racionais e objetivas, e não responder todas as vezes que “o pastor Zezinho profeta não sei das quantas disse…” ou “o padre fulano de tal falou…” Alguém pode achar que é covardia e desnecessário sabatinar uma pessoa simplesmente porque disse que tem muita fé, mas, “tenha fé” no que estou dizendo: com duas ou três dessas perguntas o inquiridor desarticula totalmente o “fervoroso”, fazendo-o complicar totalmente o meio de campo. E se ele perder a fé por causa disso é porque nunca a possuiu. Será uma benção de Deus, ele descobrir que nunca teve nada do que sempre disse ter muito. Normalmente, os que tem “muita fé” são aqueles que colocam adesivo no carro: “sou feliz por ser católico”, “amo minha igreja evangélica”, “resultado de malaquias 3:10”, “sou fiel dizimista”, “presente de Deus”, etc.

Um parêntese: (se fizeres algumas das mesmas perguntas, porém invertidas, aos que não creem, a maioria vai embolar o meio campo também). Resumindo: o ser humano é mestre em criticar ou questionar os outros sem averiguar seus próprios fundamentos.

Duvide da sua fé, desacredite de suas certezas, se deixe balançar em seus conceitos! Está com medo de que? Tema a ignorância, essa sim pode acabar com sua vida enquanto estás rindo, tranquilo e dizendo que crê. Para nós que declaramos a crença em Deus, sendo tão maravilhoso, majestoso, infinito, justíssimo, Santíssimo, você não acha que esse assunto é extremamente importante para simplesmente dizermos como Chicó: “não sei, só sei que foi assim”? Como pode um crente em Deus se contentar com respostas superficiais para perguntas que não foram feitas? E se foram, não te preocupas em responder? Como pode um cristão que foi chamado para a renovação de sua mente aceitar pressupostos religiosos sem questionar nada?

Dizem que a Semana Santa se comemora a paixão, morte e ressurreição de Jesus, é verdade, mas e daí? Teatralizar a paixão de Cristo e chorar é suficiente? Ver o quanto o Crucificado sofreu e se compadecer dele. É isso? Sacrificar a si mesmo para subconsciente e religiosamente dizer que seu sacrifício é mais eficaz que o de Cristo ou pelo menos sacrificar-me um pouco para completar o sacrifício de Jesus que fora imcompleto? Mesmo? Tem certeza que o Autor e consumador da fé está feliz com isso? O sacrifício de Cristo não foi suficiente? Se foi, quando você se sacrifica, o que pede a Deus? Acha que tem algum direito porque “fez” algo para o Eterno? Onde Ele requereu alguma coisa de você? Se Deus acha que você poderia fazer algo bom para si mesmo porque enviou Jesus e porque Ele sofreu tanto?

Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone não estão falando especificamente sobre religiosidade, mas de injustiça social. Trenchtown, favela na Jamaica, favela da Maré no Rio de janeiro, e Alagados, favela em Salvador, na lista da revista Roling Stone ficou em 63º lugar entre as 100 maiores músicas brasileiras. Apesar de tudo isso, seus autores não imaginam o quanto sua letra é mais bíblica que muito do que se canta nas igrejas contemporâneas. É um clássico que atravessa décadas, porém, nunca estivemos tão alagados como agora. Quanto as antenas de TV, veja o que George Onwell, escritor que criou a expressão Big Brother disse: “a massa mantém a marca, a marca mantém a mídia, e a mídia controla a massa”. E em se tratando de massa, marcas e mídias religiosas a coisa se complica ainda mais.

Hoje minha esposa estava assistindo à um pregador televisivo, que juntamente com alguns outros desse time de falsos profetas, suas mensagens abarcam o lixo dos lixos do evangeliquês no país do samba, carnaval, futebol, corrupção e por último e não menos numeroso, o país da religião. Pois bem, fiquei observando o excelentíssimo pregador. A cada argumento encerrado com uma frase de efeito arquitetada para aplausos e arrepios, a galera ia ao delírio. É até engraçado sua sútil paradinha para a ovação dos fiéis que não sabem fiéis em que. Em homenagem a essas pessoas que tem um paupérrimo entendimento do evangelho fiz um poema com rimas paupérrimas:

Crentes, mas não sabem crentes em que
Filhos, mas não sabem filhos de quem
Salvos, mas não sabem salvos de que
Obedientes, mas não sabem obedientes a quem

Justamente na semana da páscoa, o evento mais importante do cristianismo, sabe quantas vezes ele se referiu a mensagem da cruz? Nenhuma. A essência de sua conferência (pregação é coisa do passado), como sempre, é vitória, vitória, vitória, quem está no centro é o homem e não Deus, o bem-estar humano, sua prosperidade, tudo para mim, o que posso faturar, o que irei ganhar ao cumprir uma cartilha gospel, tudo eu eu eu, me dá me dá me dá, e ainda se não bastasse a distorção, para que eu receba, tenho que pagar: dinheiro, ou melhor, sementes e ofertas, juntamente com jejuns, frequência na igreja, “obediência” a líderes “ungidos”, a lista é extensa. E o que isso tudo tem haver com o evangelho puro e simples de Cristo? NADA.

(A maravilhosa arte de viver de muita fé, só não se sabe muita fé em que).

Em seguida, disse a minha esposa que iria lhe mostrar um palestrante que não é religioso, mas fala a mesma coisa que esse pastor: entrei na internet e pus um vídeo de um estelionatário do Marketing Multinível, a ênfase de seu discurso era exatamente a mesma do “ilustre” pastor: prosperidade, riquezas, bênçãos, mas para receber tem que ter “muita fé” e trabalho [sic!]. Para isto recitava versos da Bíblia totalmente fora de contexto para um público não menos extasiado.

Com raras exceções, não dá mais para saber a diferença entre um evento de motivação para ficar rico rápido e um culto evangélico, uma coisa sei: ambos deixam seu adorador pinel. Ah, há uma diferença: o segundo deixa o fiel que não sabe fiel em que, zoroca em nome de Gizuis. Pior é chamar isso de “relacionamento com Deus”. A que ponto chegamos minha gente. É cada uma que vejo que certamente até o diabo duvida. Então cheguei a conclusão:

“Um palestrante motivacional que de vez em quando usa versículos bíblicos para fundamentar seu distorcido entendimento sobre a graça de Deus é mais coerente que um pregador/adepto da teologia da prosperidade que de vez em quando usa versículos bíblicos para falar de Cristo”.

Alagados da fé.
Tempos difíceis.

© Lucianno Di Mendonça
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Texto e comentários publicados originalmente em uvasroxas.com em 31/03/2013

VOCÊ É SANTO LUTANDO PARA NÃO PECAR OU PECADOR LUTANDO PARA SER SANTO?

unfair_fight Ontem no seminário teológico, alguém suscitou essa pergunta. Posteriormente, a Luciana a publicou no facebook, o que gerou inúmeros comentários, cada um contribuindo com sua opinião. O que você acha?

Filosoficamente, quando você restringe uma pergunta em apenas duas opções, há possibilidade de incorrer em erro, pois, pode ser que a resposta não seja nenhuma das duas. Essa questão nos encaixota induzindo apenas marcar com “x” como em múltipla escola, e não pensar que pode haver outras perguntas e, portanto, outras respostas. E ainda, de acordo com a sintaxe, inconscientemente, o que fica em nossa cabeça é a palavra “lutando” deixando em segundo plano as palavras “santo” e “pecador”.

Respondendo a pergunta: não sou nenhum dos dois. Tudo bem que há situações que teremos várias escolhas, noutras duas, ou apenas uma, mas no caso em questão não sou nem “santo lutando para não pecar”, nem “pecador lutando para ser santo”.

Ainda que longe do ideal, pois é uma luta perdida antecipadamente, a primeira opção faria mais sentido. Mas a segunda é um desastre total e nega a graça de Deus, as religiões são mãe e pai desta expressão. Mas abaixo vou argumentar que há outra possibilidade além das que foram propostas.

A Bíblia diz que todos somos pecadores. A Bíblia também fala que quem está em Cristo é santo. Isso é uma contradição? Não. Primeiro que quem não está em Cristo não pode ser santo. Segundo, santidade não é o contrário de pecado. Mas o contrário de santo é profano e o contrário de pecado é perfeição, ou seja, alguém pode não ser profano e ser imperfeito ao mesmo tempo. Como disse Agostinho e mais tarde reforçado por Lutero: simul justus at peccator (ao mesmo tempo justo e pecador). Sabendo os contrários das palavras santo e pecado e do que Agostinho e Lutero disseram, penso que afirmar “ser ao mesmo tempo santo e pecador” é só uma questão de lógica. Se puder formular uma frase seria: “sou declarado santo entendendo que Cristo venceu o pecado em mim”. Esta é a terceira opção, e fico com ela. Pode parecer que não faz diferença, mas faz. Para quem quer apenas um resposta rápida pode parar a leitura por aqui. Valeu. Até logo. Abraço.

Pesquisadores da Austrália e Canadá[1] descobriram uma bactéria que por sua secreção pode através de reações químicas produzir ouro. Os estudos apesar de não serem conclusivos, estão avançados, e em algum tempo, estudiosos estão otimistas em futuramente produzir quilos e quilos de ouro diariamente a partir dos excrementos de uma bactéria pra lá de especial. Pense: se quando essa bactéria obra produz ouro, imagina o que pode fazer noutras atividades menos “sujas”. Se esse ouro vai ter cheiro não sei, mas se tiver será muito agradável e se feder quem se importaria? E quanto ao homem, pode produzir algo de bom? Não! O fruto de suas melhores obras, justiça e “santidade” a Bíblia diz que para Deus são como trapos de imundície. Se as melhores e mais cheirosas obras do homem são imundas, imagine as piores.

A santidade não deve ser entendida como algo intrínseco ao homem, como se pudesse produzir bondade a partir dele mesmo. Quanto ao pecado Jesus disse: “quando vier o Consolador convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo” e continua “do pecado porque não creem em mim”. Ou seja, o problema fundamental do pecado está relacionado em rejeitar Jesus como Senhor. A santidade está relacionada ao conhecimento de Deus.

Uma pessoa que não tem a mínima noção do Evangelho, não sabe quão miserável é, quão morta está, não sabe o propósito da morte e ressurreição de Cristo, não entende a graça soberana, ao ver essa pergunta, simplesmente escolhe se é “santo lutando para não pecar” ou se vai estar do lado dos “pecadores lutando para serem santos”, e fica por isso mesmo. E tudo isso a partir de seus próprios méritos, esforços e justiça. E é exatamente isso que a massa católica e evangélica está tentando causar em seus respectivos seguidores. Ou seja, uma lambança reproduzindo um simulacro de santo-do-pau-oco misturado com pecador piedoso.

Ninguém pode ser mais santo que foi ontem, nem mais santo que seu próximo, nem menos santo que qualquer “santo” vivo ou morto, porque a santidade é proveniente do SANTO e toda d’Ele. A partir do momento que entendo a mensagem da Cruz, depositando em Cristo minha confiança e esperança, aos olhos de Deus não posso ser nem mais nem menos santo, nem ser mais ou menos pecador. Sou apenas simul justus at peccator, ao mesmo tempo justo e pecador. Veja o que em Hb 10:10 diz:

1356034“Pelo cumprimento dessa vontade fomos santificados por meio do sacrifício do corpo de Jesus Cristo, oferecido uma vez por todas.” 

Interessante que normalmente associamos o sangue de Jesus com a justificação, o que é verdade, mas neste texto diz que fomos santificados por meio do sacrifício do corpo de Jesus Cristo. Observando que o verbo “ir” está conjugado no passado (pretérito perfeito), não ocorre pelos nossos sacrifícios e esforços contínuos presentes ou futuros.

Santidade: diz respeito somente a Deus. Pecado: diz respeito somente ao homem.

Como conciliar isso, melhor dizendo: como reconciliar homem e Deus? O amor de Deus e a resposta. Veja o que diz em 2 Co 5.21: “àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus”. Somente quem não conheceu pecado (Jesus) venceu o pecado. Veja, antes de praticar pecados, sou pecador, isso diz respeito a essência, por isso entender Cristo é mais importante que lutar contra o pecado. Como diz o versículo, só posso vencer o pecado quando “nele” sou feito justiça de Deus.

Quando pratico boas obras, isso é evidência de quem habita em mim que é o Espírito (Santo) e não resultado de quem sou (pecador). Por isso a “luta” se processa na minha mente e não no meu corpo ou nas minhas obras, pois todas elas são más. Quanto a isso vou me retirar por um parágrafo para que o apóstolo Paulo, explique melhor:

“Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim. Assim, encontro esta lei que atua em mim: Quando quero fazer o bem, o mal está junto a mim. Pois, no íntimo do meu ser tenho prazer na lei de Deus; mas vejo outra lei atuando nos membros do meu corpo, guerreando contra a lei da minha mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros. Miserável homem eu que sou! Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor! De modo que, com a mente, eu próprio sou escravo da lei de Deus; mas, com a carne, da lei do pecado.” (Rm 7.18-25)

Devemos sim lutar para não pecar, e mesmo sabendo que na maior parte das vezes iremos perder (aqui acho que errei, pois Paulo disse que perdia todas), mas se posicionar nessa arena de combate é muito revelador sobre o tipo de coração que temos. Paulo vivia esse embate constantemente: olhar para a absoluta santidade de Deus e enxergar sua absoluta miséria. Mas sua alegria indizível era confiar na justiça substitutiva de Cristo, o Senhor! Ou seja, a luta épica de proporções cósmicas está na dimensão do entendimento da palavra de Deus e conhecimento da pessoa de Cristo, só então vencemos o pecado da ignorância, não por nossas forças e lutas, mas pelo único e exclusivo amor e poder de Deus. Nesse texto Paulo despe a natureza humana tão rudemente que alguns religiosos defendem a ideia que o apóstolo havia escrito isso antes de se converter, mas apenas um pouquinho de interpretação de texto mostra que nesse momento ele já era simplesmente O APÓSTOLO PAULO! Se ele estivesse se tornando “mais santo e menos pecador” bem que poderia dizer isso aqui e se contradizer totalmente, né não?! Veja outra passagem interessante em Hb 9.14:

“quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu como vítima sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas para o serviço do Deus vivo?”

Óbvio que os “declarados santos entendendo que Cristo venceu o pecado em nós” não são amorais, imorais, antiéticos, maldosos, pervertidos, incrédulos, etc, mas seu padrão de conduta em todos os sentidos deve servir como referência, que isso fique claro. Os livros de Romanos, 1 Coríntios e Hebreus nos dão um bom entendimento quanto ao conceito de “ser declarado santo entendendo que Cristo venceu o pecado em nós”. Essa adendo evita que alguns digam: “assim é muito fácil, nada depende de mim? Quer dizer que posso viver dissolutamente e “chutar o pau da barraca”?” Não é isso que estou dizendo, veja Hb 10.29:

“Quão mais severo castigo, julgam vocês, merece aquele que pisou aos pés o Filho de Deus, que profanou o sangue da aliança pelo qual ele foi santificado, e insultou o Espírito da graça?”

Quem não valoriza o preço do sangue derramado em favor de si mesmo, no qual foi santificado, está profanando o sangue da aliança e insultando o Espírito da graça. Isso é terrível, pois, pisar nos pés feridos do Crucificado não é uma boa ideia. Olha quão sensacional é esse texto de Ap 22:11: “Quem é injusto, faça injustiça ainda; e quem está sujo, suje-se ainda; e quem é justo, faça justiça ainda; e quem é santo, seja santificado ainda”. Repetindo: seja santificado ainda, não é santifique-se ainda.

Reconciliação, justificação, regeneração, adoção, santificação e glorificação, são conceitos diferentes que compõem a redenção total do homem, não vamos falar de cada um porque não é o caso. Mas assim como na doutrina da justificação, na doutrina da santificação o principio é o mesmo. Na primeira, nossa justiça se fundamenta na fé no sacrifício e morte de Cristo em nosso lugar, ou seja, como deu entender Paulo e disse Lutero: “não nos tornamos justos, mas somos declarados justos”, dai a expressão tomada emprestada do termo jurídico: justificados. (Rm 3: 24-28). Na segunda doutrina não nos tornamos santos, somos declarados santos pelos méritos da vida de Jesus uma vez que ressuscitamos pela fé para uma nova vida juntamente com ele, daí a expressão santificados.

Pode parecer que é uma diferença mínima entre “ser santo e lutar contra o pecado”, e “ser declarado santo entendendo que Cristo venceu o pecado em nós”. Mas a não observância desse detalhe é que tem feito-nos perder o foco da mensagem central da Bíblia: CRISTO É TUDO! Por isso tantas mensagens “cristãs” de autoajuda, motivação, vitória, amor, perdão, paz, fé, felicidade, mas todas estas mensagens colocam o homem no centro, pensando que a partir dele mesmo pode ser melhor e mais feliz. Essa é a inversão de valores que chamamos de teologia cristocêntrica para teologia antropocêntrica, a última é uma contradição de termos, porém a que mais se prega e se crê por ai.

Alguns podem dizer que não fomos santificados, mas estamos sendo santificados. Essa ideia de estar num processo de santificação por esforços próprios, no sentido de ser “melhor” ou pecar menos, é uma ideia católica romana que os protestantes assimilaram tão bem ou melhor que seus antecessores. O que podemos e devemos agora é como disse Paulo em 2 Co 3.18:

“E todos nós, que com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor, segundo a sua imagem estamos sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito.”

Ao contemplar a glória do Senhor que é a sua Palavra Viva com sinceridade e entendimento, aqueles que são “ao mesmo tempo santos e pecadores”, estão sendo transformados, não é que eles se transformam, o verso termina dizendo: “a qual vem do Senhor”. Esse é o verdadeiro processo de santificação. Ele(a) não se torna mais santo, mas se torna mais humano. Faz-me lembrar uma charge onde o bonequinho orava a Deus dizendo e batendo as mãos no chão e ao peito:

– Senhor sou tão santo! Tão bom, tão melhor e mais inteligente que as outras pessoas! Mas o que faço para ser mais santo? – Seja mais humano. – Deus responde.

Lembra-se quando no primeiro capítulo do livro de Gênesis, Deus disse: “façamos o homem a nossa imagem e semelhança”? Pois bem, quando com a face descoberta comtemplamos como por espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, não é que estamos num processo de divinização por nossa capacidade, mas num processo de humanização pelo poder de Deus. Quanto mais conhecemos a Deus, mais homem e mulher nos tornamos, e se isso não estiver acontecendo é porque estamos multiplicando apenas religião hipócrita ou filosofia de boteco, bestializando-nos cada vez mais, tornando-nos intolerantes, julgadores, achando-nos mais conhecedores, capazes e melhores que os outros “pobres ignorantes”.

O processo de santificação pode também ser entendido por processo de humanização. Em nosso inconsciente acreditamos que quanto mais santificados somos, mais anjificados nos tornamos, mais isso não é verdade. Na Teologia Sistemática santificação é o processo pelo qual nos tornamos semelhantes a Cristo. Pergunto: vamos tornando-nos semelhantes a natureza do Cristo em sua divindade sem pecado ou em sua humanidade sem pecado? Não tenho dúvidas que esse processo se dá para a humanidade de Cristo, senão quanto mais “santos” mais “deuses” nos tornaríamos. E o que achamos ser um processo de santificação pode na verdade ser um processo de bestialização. Veja Ef 4.13,14:

Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo. Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente.

Esses dois versículos desmontam essa ideia de ser “mais santo”, pois, diz que a medida que conhecemos o Filho de Deus (não diz ser menos pecador), chegamos a homem perfeito (não diz santo perfeito), e finalmente infere claramente que estamos num processo para chegar a humanidade de Cristo e não a sua divindade. Isso é deixar de ser menino incostante. De maneira que, quer ser santo? Conheça o Santo. Quer virar homem e deixar de meninice? Prossiga em conhecer o Desejado das Nações. A frase “um santo não é alguém bom, mas alguém que experimenta a bondade de Deus” é muito boa, principalmente por vir de um escritor católico francês do século passado, Thomas Merton.

wonderful-lake-landscape-wallpaperComparo o conhecimento – da santidade – de Deus como um rio incomensurável, você não pode beber toda sua água, mas pode de coração ofegante, dobrar os joelhos vacilantes, apoiar os pés resvalantes e saciar a sede afundando as duas mãos trêmulas e fracas retirando-as cheias de água cristalina e pura. Pode não ir até o fundo a encostar o pezinho em suas profundezas, mas pode fechar os olhos, prender a respiração e entrar de cabeça em sua superfície e deliciosamente mergulhar por sua margem. Mas ao contrário do rio que quanto mais fundo, escuro, sem ar e maior a pressão, em Deus, quanto mais fundo, mais vida, mais claro tudo se torna… e maior liberdade.

Dito isto, pergunto: “você é santo lutando para não pecar ou pecador lutando para ser santo?” ou ainda “declarado santo entendendo que Cristo venceu o pecado em você?” Acha que tem mais opções? A pergunta o encaixota? Ok, medite no assunto e… diga.

Bom, essa é uma discussão milenar, não acho que podemos resumi-la nalgumas frases, nem achar que se esgota e encerra o assunto apenas numa opinião, estou muito longe tanto de enquadrar a questão num artigo, tanto quanto fechá-la na minha mente, assim como, sou um pecador da pior espécie dado o conhecimento que tenho de minha natureza, mas glória a Deus e somente a Ele que nos amou, sofreu, morreu e ressuscitou e vive pelos séculos dos séculos por todos quantos foram designados para assim crer!

Ao Deus que transcende infinitas eternidades, Senhor de ilimitada criatividade, que se humilhou e nos amou incondicionalmente…

© Lucianno Di Mendonça
www.plurais.net

Texto e comentários publicados originalmente em uvasroxas.com em 19/02/2013