QUIÉN SOY YO

Saudável-pra-cachorro

Já latiram, zoaram, relincharam e berraram que sou um animal. É verdade. Irracional? Penso… que não. Alguém disse que “a vida não é nada mais que uma explosão ocasional de risos sobre um interminável lamento de dor”. Essa frase tem uma verdade que me incomoda… e faz rir.

Não gosto desses animais que o tempo todo dizem que está tudo bem, alto astral, se melhorar vira festa, sempre sorrindo, rolando na lama, focinho empinado, ao cumprimentar dão as patas olhando para outro lado, com aquele mal cheirinho de superioridade. Parece que têm algo a esconder, andando, trotando, nadando, dirigindo, tocaiando os mais avoados e apavorados. Seres de quatro patas rastejantes, criaturas com asas aviltantes. Velozes de duas pernas que não chegam a lugar algum. Irracionais que só pensam ser o número um.

Sou dependente existencial. Não sou bem aceito na sociedade. Se fico a vontade causo desconforto, se almoço gero coceira, se vou fazer caminhada para perder peso pisam na minha cabeça. Só de me olharem sentem asco e repugnância, quando me encostam se lavam com álcool. Alguns sentem ânsia de vômito só de imaginarem que estou por perto. Queria que soubessem que não tenho culpa por ser assim. Volta e meia despejam-me de meu lar jogando-me na privada. Será que eles acham que não tenho família? Por acaso sou algum espécime de cocô para darem descarga em mim?

Sou feio, disforme, desproporcional, arrasto mais que ando, minha cor predominante é cinza para o lado de morto, mais enrugado que shar-pei. Sou mal compreendido, rejeitado, mal-amado. Até fizeram uma homenagem para mim, mas achei que foi deselegante, pois, batizaram uma doença com meu nome. Minha irmã está esperando nenéns, serão centenas de meninos e meninas, mas o médico disse que pessoas como ela não resistem o pós parto e morrem. O que será de meus sobrinhos órfãos nesse mundo cão?

A maior causa de morte infantil é coceira. Muitos quando pequenos, ainda destreinados e inocentes ficam em regiões muito suscetíveis a patas e unhas imensas de nossos inimigos, então nossas criancinhas são dilaceradas sem piedade. Ao mesmo tempo em que nos matam, sem eles não vivemos. O mundo é muito cruel.

Não gosto de chocolate, futebol, festas, odeio cerveja e pizza, abomino banho, minha maior alegria é dar voltinha de carro principalmente se vou na janela, adoro dormir na cama da dona da minha residência debaixo de edredom em tempinho frio curtindo filmes da Pixar em 3D. Quando saio de minha casa, amo contemplar a natureza, às vezes fico estático e absorto deslumbrado com sua beleza inebriante por horas e horas. Contudo, o que mais gosto é de sangue. Sou compulsivo por sangue, se estou banqueteando passo a noite e o dia todo, as vezes vários dias, só paro quando estou a ponto de explodir. Sou tão diferente que quando sinto-me saciado dizem que estou ingurgitado.

INGURGITADO É A MÃE!

Sangue humano é uma comida ruim, perigosa e contaminada, pois, o coração de onde jorra o alimento é sujo, bombeia ódio, amargura, intolerância, preconceito e ignorância. Evito pratos que vão sangue de gente, e quando acontece tenho que tomar Estomazil e Omeprazol, não poucas vezes fui parar no hospital. Certa vez vomitei tanto, senti náuseas, com o corpo tão inchaço e fadigado que tive que fazer hemodiálise. Minha mãe com sua preocupação, levou-me num dos analistas mais eminentes da praça, o Dr. Artrópode Exoesqueleto, fui examinado em várias sessões, mas farei como Cazuza, “vou pagar a conta do analista pra nunca mais ter que saber quem eu sou”.

Não tenho amor-próprio, gosto mais das cachorras que de mim, quando pego no pé dalguma solta por ai, não largo mais. Outro dia fui requisitar asilo político na Sociedade Protetora dos Animais e meu pedido foi indeferido sob a justificativa de que sou um animalzinho de quingentésima categoria e que estão em guerra contra nossa classe. Sai daquela espelunca de cães devoradores revoltadíssimo, cuspindo sangue. Vou fundar a Sociedade Protetora da Sociedade Protetora, serão convidados somente os desvalidos, enjeitados, invisíveis sociais para fazer parte do conselho deliberativo. Abaixo a repressão!

Será que algum dia alguém terá estima por mim ao ponto de ter-me por estimação? Gostaria muito de saber de Leonardo Da Vinci estava pensando em meus iguais quando disse: “chegará um dia no qual os homens conhecerão o íntimo dos animais, e nesse dia, um crime contra um animal será considerado um crime contra a humanidade”. Ah, como queria apenas por um dia, minuto ou segundo que alguém se colocasse em meu lugar, então saberiam o quão difícil e indefinível é saber quem sou. Então, aqueles aos quais chamamos humanos conheceriam a humanidade daqueles aos quais chamam animais.

Outro dia resolvi suicidar. Escrevi um bilhete aos meus familiares, pedi perdão a minha mãezinha, disse que os amo muito, que não chorem minha falta, limpei as lágrimas, elevei os olhos aos montes e perguntei “de onde me virá o socorro?” Com muita demora e dificuldade saí de minha casa em direção a rua, pelo caminho vi minha infância, amigos, o campo de pêlos onde jogávamos bola e bete, a árvore onde a sua sombra chupávamos laranjinhas de sangue de gato, um filme passou na minha frente. Pensei: “o plano é que se não me esmagarem pelos pneus dum carro, serei fritado no asfalto quente… adeus mundo cruel”.

Mas para minha surpresa, no meio da caminhada, na beirada do meio-fio quando ia saltar do precipício, o tempo fechou, raios e violentas trovoadas, toró d’água, e para piorar, a prefeitura interditou a rua para fazer manutenção no sistema de esgoto dos humanos. Meus planos foram por água abaixo; Algo mais forte que minha fortaleza de carapaça reclusa de vaidades doentias impediu-me de cometer aquele ato.

Até aquela tarde em que fora arrastado por todos os meus cantos e entornos mais profundos, minha vida era um lamento interminável de dor… Mas hoje acorreu-me outro contorno para minha existência, grudei na ponta do rabo daquele cachorro farejador de carniça do Sr. Manoel da Feira, fiz tanta coceira, que o fiz correr em volta de seu rabo freneticamente, enquanto eu ria descontroladamente.

Hoje foi meu dia de explosão de risos!

Quem eu sou? Outro dia passeando pelos corredores da igreja, alguém recitou algo dum poeta chamado Álvaro de Campos que dizia:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo

Enfim, carrapato, dizem que sou, muitos sentem ódio alguns pena, mas o que “os que dizem” falam de si mesmos? Estou exausto de querer me ver no mural dos olhos dos que dizem. Finalmente, estou aprendendo a gostar de ser… apenas. Seria essa a quintessência duma criatura única num universo plural?

© Lucianno Di Mendonça
www.plurais.net

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