SÓ NÃO SE SABE FÉ EM QUE

245-Os Paralamas Do Sucesso - Selvagem 1986

Os Paralamas do Sucesso em Alagados dizem:

A esperança não vem do mar
Nem das antenas de TV
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê

Quanto mais vejo fé nos religiosos, especialmente os declaradamente cristãos, mais gostaria de saber, fé em quê? Que arte desalmada e sem graça é essa de viver da fé que não se sabe fé em que? Só de alguém dizer que tem “muita fé” já é um claríssimo indicativo que essa pessoa não tem a mínima noção do que está dizendo.

Acha que estou exagerando? Faça algumas perguntas básicas, como por exemplo: no que você crê? Porque? Como? O que é fé? Como pode ter certeza do que crê? Qual a razão de sua fé? Quem é Deus? Como Ele se revela a você? Porque a Bíblia é a palavra de Deus? As Escrituras foram adulteradas para atender interesses políticos/religiosos? Como você sabe? Deus se revela somente através desse livro? Porque Ele não se revela noutras literaturas que requerem para si a mesma autoridade? Você ama e deseja conhecer esse livro que dizes ser inspirado por Deus ou nada se interessa por estudá-lo? Porque você sabe que Ele existe? Deus fala com você? Sério? Como? Não fala? Como não? Porque és cristão? Houve um dia em que entendeste algo sobre Jesus que fez total diferença na sua vida ou simplesmente é cristão porque é? O que Jesus quis dizer sobre novo nascimento? Você nasceu de novo? Será? Quem é Jesus? Porque os ateus estão errados e você está certo? Será que não estás enganado em tudo que crê? Nunca sentistes vergonha em abrir a boca para falar de alguém que não conhece? Já sentiu-se aliviado(a) em reconhecer que precisa retirar a máscara, descer do salto do orgulho na festa das vaidades, despir-se da fantasia, se ajoelhar solitário no jardim da humildade à margem das águas serenas da vida e implorar o favor divino?

Diga que as respostas devem ser racionais e objetivas, e não responder todas as vezes que “o pastor Zezinho profeta não sei das quantas disse…” ou “o padre fulano de tal falou…” Alguém pode achar que é covardia e desnecessário sabatinar uma pessoa simplesmente porque disse que tem muita fé, mas, “tenha fé” no que estou dizendo: com duas ou três dessas perguntas o inquiridor desarticula totalmente o “fervoroso”, fazendo-o complicar totalmente o meio de campo. E se ele perder a fé por causa disso é porque nunca a possuiu. Será uma benção de Deus, ele descobrir que nunca teve nada do que sempre disse ter muito. Normalmente, os que tem “muita fé” são aqueles que colocam adesivo no carro: “sou feliz por ser católico”, “amo minha igreja evangélica”, “resultado de malaquias 3:10”, “sou fiel dizimista”, “presente de Deus”, etc.

Um parêntese: (se fizeres algumas das mesmas perguntas, porém invertidas, aos que não creem, a maioria vai embolar o meio campo também). Resumindo: o ser humano é mestre em criticar ou questionar os outros sem averiguar seus próprios fundamentos.

Duvide da sua fé, desacredite de suas certezas, se deixe balançar em seus conceitos! Está com medo de que? Tema a ignorância, essa sim pode acabar com sua vida enquanto estás rindo, tranquilo e dizendo que crê. Para nós que declaramos a crença em Deus, sendo tão maravilhoso, majestoso, infinito, justíssimo, Santíssimo, você não acha que esse assunto é extremamente importante para simplesmente dizermos como Chicó: “não sei, só sei que foi assim”? Como pode um crente em Deus se contentar com respostas superficiais para perguntas que não foram feitas? E se foram, não te preocupas em responder? Como pode um cristão que foi chamado para a renovação de sua mente aceitar pressupostos religiosos sem questionar nada?

Dizem que a Semana Santa se comemora a paixão, morte e ressurreição de Jesus, é verdade, mas e daí? Teatralizar a paixão de Cristo e chorar é suficiente? Ver o quanto o Crucificado sofreu e se compadecer dele. É isso? Sacrificar a si mesmo para subconsciente e religiosamente dizer que seu sacrifício é mais eficaz que o de Cristo ou pelo menos sacrificar-me um pouco para completar o sacrifício de Jesus que fora imcompleto? Mesmo? Tem certeza que o Autor e consumador da fé está feliz com isso? O sacrifício de Cristo não foi suficiente? Se foi, quando você se sacrifica, o que pede a Deus? Acha que tem algum direito porque “fez” algo para o Eterno? Onde Ele requereu alguma coisa de você? Se Deus acha que você poderia fazer algo bom para si mesmo porque enviou Jesus e porque Ele sofreu tanto?

Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone não estão falando especificamente sobre religiosidade, mas de injustiça social. Trenchtown, favela na Jamaica, favela da Maré no Rio de janeiro, e Alagados, favela em Salvador, na lista da revista Roling Stone ficou em 63º lugar entre as 100 maiores músicas brasileiras. Apesar de tudo isso, seus autores não imaginam o quanto sua letra é mais bíblica que muito do que se canta nas igrejas contemporâneas. É um clássico que atravessa décadas, porém, nunca estivemos tão alagados como agora. Quanto as antenas de TV, veja o que George Onwell, escritor que criou a expressão Big Brother disse: “a massa mantém a marca, a marca mantém a mídia, e a mídia controla a massa”. E em se tratando de massa, marcas e mídias religiosas a coisa se complica ainda mais.

Hoje minha esposa estava assistindo à um pregador televisivo, que juntamente com alguns outros desse time de falsos profetas, suas mensagens abarcam o lixo dos lixos do evangeliquês no país do samba, carnaval, futebol, corrupção e por último e não menos numeroso, o país da religião. Pois bem, fiquei observando o excelentíssimo pregador. A cada argumento encerrado com uma frase de efeito arquitetada para aplausos e arrepios, a galera ia ao delírio. É até engraçado sua sútil paradinha para a ovação dos fiéis que não sabem fiéis em que. Em homenagem a essas pessoas que tem um paupérrimo entendimento do evangelho fiz um poema com rimas paupérrimas:

Crentes, mas não sabem crentes em que
Filhos, mas não sabem filhos de quem
Salvos, mas não sabem salvos de que
Obedientes, mas não sabem obedientes a quem

Justamente na semana da páscoa, o evento mais importante do cristianismo, sabe quantas vezes ele se referiu a mensagem da cruz? Nenhuma. A essência de sua conferência (pregação é coisa do passado), como sempre, é vitória, vitória, vitória, quem está no centro é o homem e não Deus, o bem-estar humano, sua prosperidade, tudo para mim, o que posso faturar, o que irei ganhar ao cumprir uma cartilha gospel, tudo eu eu eu, me dá me dá me dá, e ainda se não bastasse a distorção, para que eu receba, tenho que pagar: dinheiro, ou melhor, sementes e ofertas, juntamente com jejuns, frequência na igreja, “obediência” a líderes “ungidos”, a lista é extensa. E o que isso tudo tem haver com o evangelho puro e simples de Cristo? NADA.

(A maravilhosa arte de viver de muita fé, só não se sabe muita fé em que).

Em seguida, disse a minha esposa que iria lhe mostrar um palestrante que não é religioso, mas fala a mesma coisa que esse pastor: entrei na internet e pus um vídeo de um estelionatário do Marketing Multinível, a ênfase de seu discurso era exatamente a mesma do “ilustre” pastor: prosperidade, riquezas, bênçãos, mas para receber tem que ter “muita fé” e trabalho [sic!]. Para isto recitava versos da Bíblia totalmente fora de contexto para um público não menos extasiado.

Com raras exceções, não dá mais para saber a diferença entre um evento de motivação para ficar rico rápido e um culto evangélico, uma coisa sei: ambos deixam seu adorador pinel. Ah, há uma diferença: o segundo deixa o fiel que não sabe fiel em que, zoroca em nome de Gizuis. Pior é chamar isso de “relacionamento com Deus”. A que ponto chegamos minha gente. É cada uma que vejo que certamente até o diabo duvida. Então cheguei a conclusão:

“Um palestrante motivacional que de vez em quando usa versículos bíblicos para fundamentar seu distorcido entendimento sobre a graça de Deus é mais coerente que um pregador/adepto da teologia da prosperidade que de vez em quando usa versículos bíblicos para falar de Cristo”.

Alagados da fé.
Tempos difíceis.

© Lucianno Di Mendonça
www.plurais.net

Texto e comentários publicados originalmente em uvasroxas.com em 31/03/2013

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2 respostas em “SÓ NÃO SE SABE FÉ EM QUE

  1. não li seu texto todo estou sem tempo para hiprcresia religiosa, falas da fé em DEUS como sendo aberração da distorção do caracter religiosos de muitos q assim como eu CRÊ com conhecimento neste ser sobrenatural q não só já me provou q existe como, existe seus comentários para mim é coisa de gente louca procurando uma razão para confundir os alienados de plantão vc não é diferente de quem deturpou a bíblia quem tem FÉ no criador tem por q algum tipo d experiencia com ELE já tiveram mas não porq um livro q foi traduzidos por gregos e romanos os impoem a esta fé, eu vejo DEUS =(YHWH) em todo falo com ELE quando quero e YHWH(DEUS) me responde quando acha q é necessário, continue do jeito q estas e ELE logo logo,entrará encontato com vc,estarei orando por vc,sou CRISTÃ INDEPENDENTE, não vivo dentro de Igrejas pois a Igreja sou EU.

    • Olá Verlucia. No início de seu comentário, já mostrou que tem o mesmo problema da maioria dos religiosos, não lê, não ouve, não medita no que leu ou ouviu, e por agir assim, não sabe conviver com opiniões divergentes. Sugiro que, se não quiser ler tudo, também não comente sobre algo que não sabe do que se trata. Não há problema algum em comentar e discordar de tudo que foi dito, isso é bom, mas o mínimo de coerência e honestidade em ouvir primeiro, é básico até mesmo para discordar. Talvez no final do artigo verás que concordamos nessa fé em YHWH. O tempo (que não tem a perder) que gastou escrevendo, se houvesse lido, teria evitado comentar e cometer essa gafe, aliás, 3 segundos que prestasse atenção na imagem do coelhinho crucificado, seria suficiente para evitar o embaraço. Ah, o nome que você disse YHWH só existe no livro que disseste “impor a esta fé”, foi lá que alguém que lhe transmitiu essa informação retirou esse conhecimento…

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