VOCÊ É SANTO LUTANDO PARA NÃO PECAR OU PECADOR LUTANDO PARA SER SANTO?

unfair_fight Ontem no seminário teológico, alguém suscitou essa pergunta. Posteriormente, a Luciana a publicou no facebook, o que gerou inúmeros comentários, cada um contribuindo com sua opinião. O que você acha?

Filosoficamente, quando você restringe uma pergunta em apenas duas opções, há possibilidade de incorrer em erro, pois, pode ser que a resposta não seja nenhuma das duas. Essa questão nos encaixota induzindo apenas marcar com “x” como em múltipla escola, e não pensar que pode haver outras perguntas e, portanto, outras respostas. E ainda, de acordo com a sintaxe, inconscientemente, o que fica em nossa cabeça é a palavra “lutando” deixando em segundo plano as palavras “santo” e “pecador”.

Respondendo a pergunta: não sou nenhum dos dois. Tudo bem que há situações que teremos várias escolhas, noutras duas, ou apenas uma, mas no caso em questão não sou nem “santo lutando para não pecar”, nem “pecador lutando para ser santo”.

Ainda que longe do ideal, pois é uma luta perdida antecipadamente, a primeira opção faria mais sentido. Mas a segunda é um desastre total e nega a graça de Deus, as religiões são mãe e pai desta expressão. Mas abaixo vou argumentar que há outra possibilidade além das que foram propostas.

A Bíblia diz que todos somos pecadores. A Bíblia também fala que quem está em Cristo é santo. Isso é uma contradição? Não. Primeiro que quem não está em Cristo não pode ser santo. Segundo, santidade não é o contrário de pecado. Mas o contrário de santo é profano e o contrário de pecado é perfeição, ou seja, alguém pode não ser profano e ser imperfeito ao mesmo tempo. Como disse Agostinho e mais tarde reforçado por Lutero: simul justus at peccator (ao mesmo tempo justo e pecador). Sabendo os contrários das palavras santo e pecado e do que Agostinho e Lutero disseram, penso que afirmar “ser ao mesmo tempo santo e pecador” é só uma questão de lógica. Se puder formular uma frase seria: “sou declarado santo entendendo que Cristo venceu o pecado em mim”. Esta é a terceira opção, e fico com ela. Pode parecer que não faz diferença, mas faz. Para quem quer apenas um resposta rápida pode parar a leitura por aqui. Valeu. Até logo. Abraço.

Pesquisadores da Austrália e Canadá[1] descobriram uma bactéria que por sua secreção pode através de reações químicas produzir ouro. Os estudos apesar de não serem conclusivos, estão avançados, e em algum tempo, estudiosos estão otimistas em futuramente produzir quilos e quilos de ouro diariamente a partir dos excrementos de uma bactéria pra lá de especial. Pense: se quando essa bactéria obra produz ouro, imagina o que pode fazer noutras atividades menos “sujas”. Se esse ouro vai ter cheiro não sei, mas se tiver será muito agradável e se feder quem se importaria? E quanto ao homem, pode produzir algo de bom? Não! O fruto de suas melhores obras, justiça e “santidade” a Bíblia diz que para Deus são como trapos de imundície. Se as melhores e mais cheirosas obras do homem são imundas, imagine as piores.

A santidade não deve ser entendida como algo intrínseco ao homem, como se pudesse produzir bondade a partir dele mesmo. Quanto ao pecado Jesus disse: “quando vier o Consolador convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo” e continua “do pecado porque não creem em mim”. Ou seja, o problema fundamental do pecado está relacionado em rejeitar Jesus como Senhor. A santidade está relacionada ao conhecimento de Deus.

Uma pessoa que não tem a mínima noção do Evangelho, não sabe quão miserável é, quão morta está, não sabe o propósito da morte e ressurreição de Cristo, não entende a graça soberana, ao ver essa pergunta, simplesmente escolhe se é “santo lutando para não pecar” ou se vai estar do lado dos “pecadores lutando para serem santos”, e fica por isso mesmo. E tudo isso a partir de seus próprios méritos, esforços e justiça. E é exatamente isso que a massa católica e evangélica está tentando causar em seus respectivos seguidores. Ou seja, uma lambança reproduzindo um simulacro de santo-do-pau-oco misturado com pecador piedoso.

Ninguém pode ser mais santo que foi ontem, nem mais santo que seu próximo, nem menos santo que qualquer “santo” vivo ou morto, porque a santidade é proveniente do SANTO e toda d’Ele. A partir do momento que entendo a mensagem da Cruz, depositando em Cristo minha confiança e esperança, aos olhos de Deus não posso ser nem mais nem menos santo, nem ser mais ou menos pecador. Sou apenas simul justus at peccator, ao mesmo tempo justo e pecador. Veja o que em Hb 10:10 diz:

1356034“Pelo cumprimento dessa vontade fomos santificados por meio do sacrifício do corpo de Jesus Cristo, oferecido uma vez por todas.” 

Interessante que normalmente associamos o sangue de Jesus com a justificação, o que é verdade, mas neste texto diz que fomos santificados por meio do sacrifício do corpo de Jesus Cristo. Observando que o verbo “ir” está conjugado no passado (pretérito perfeito), não ocorre pelos nossos sacrifícios e esforços contínuos presentes ou futuros.

Santidade: diz respeito somente a Deus. Pecado: diz respeito somente ao homem.

Como conciliar isso, melhor dizendo: como reconciliar homem e Deus? O amor de Deus e a resposta. Veja o que diz em 2 Co 5.21: “àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus”. Somente quem não conheceu pecado (Jesus) venceu o pecado. Veja, antes de praticar pecados, sou pecador, isso diz respeito a essência, por isso entender Cristo é mais importante que lutar contra o pecado. Como diz o versículo, só posso vencer o pecado quando “nele” sou feito justiça de Deus.

Quando pratico boas obras, isso é evidência de quem habita em mim que é o Espírito (Santo) e não resultado de quem sou (pecador). Por isso a “luta” se processa na minha mente e não no meu corpo ou nas minhas obras, pois todas elas são más. Quanto a isso vou me retirar por um parágrafo para que o apóstolo Paulo, explique melhor:

“Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim. Assim, encontro esta lei que atua em mim: Quando quero fazer o bem, o mal está junto a mim. Pois, no íntimo do meu ser tenho prazer na lei de Deus; mas vejo outra lei atuando nos membros do meu corpo, guerreando contra a lei da minha mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros. Miserável homem eu que sou! Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor! De modo que, com a mente, eu próprio sou escravo da lei de Deus; mas, com a carne, da lei do pecado.” (Rm 7.18-25)

Devemos sim lutar para não pecar, e mesmo sabendo que na maior parte das vezes iremos perder (aqui acho que errei, pois Paulo disse que perdia todas), mas se posicionar nessa arena de combate é muito revelador sobre o tipo de coração que temos. Paulo vivia esse embate constantemente: olhar para a absoluta santidade de Deus e enxergar sua absoluta miséria. Mas sua alegria indizível era confiar na justiça substitutiva de Cristo, o Senhor! Ou seja, a luta épica de proporções cósmicas está na dimensão do entendimento da palavra de Deus e conhecimento da pessoa de Cristo, só então vencemos o pecado da ignorância, não por nossas forças e lutas, mas pelo único e exclusivo amor e poder de Deus. Nesse texto Paulo despe a natureza humana tão rudemente que alguns religiosos defendem a ideia que o apóstolo havia escrito isso antes de se converter, mas apenas um pouquinho de interpretação de texto mostra que nesse momento ele já era simplesmente O APÓSTOLO PAULO! Se ele estivesse se tornando “mais santo e menos pecador” bem que poderia dizer isso aqui e se contradizer totalmente, né não?! Veja outra passagem interessante em Hb 9.14:

“quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu como vítima sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas para o serviço do Deus vivo?”

Óbvio que os “declarados santos entendendo que Cristo venceu o pecado em nós” não são amorais, imorais, antiéticos, maldosos, pervertidos, incrédulos, etc, mas seu padrão de conduta em todos os sentidos deve servir como referência, que isso fique claro. Os livros de Romanos, 1 Coríntios e Hebreus nos dão um bom entendimento quanto ao conceito de “ser declarado santo entendendo que Cristo venceu o pecado em nós”. Essa adendo evita que alguns digam: “assim é muito fácil, nada depende de mim? Quer dizer que posso viver dissolutamente e “chutar o pau da barraca”?” Não é isso que estou dizendo, veja Hb 10.29:

“Quão mais severo castigo, julgam vocês, merece aquele que pisou aos pés o Filho de Deus, que profanou o sangue da aliança pelo qual ele foi santificado, e insultou o Espírito da graça?”

Quem não valoriza o preço do sangue derramado em favor de si mesmo, no qual foi santificado, está profanando o sangue da aliança e insultando o Espírito da graça. Isso é terrível, pois, pisar nos pés feridos do Crucificado não é uma boa ideia. Olha quão sensacional é esse texto de Ap 22:11: “Quem é injusto, faça injustiça ainda; e quem está sujo, suje-se ainda; e quem é justo, faça justiça ainda; e quem é santo, seja santificado ainda”. Repetindo: seja santificado ainda, não é santifique-se ainda.

Reconciliação, justificação, regeneração, adoção, santificação e glorificação, são conceitos diferentes que compõem a redenção total do homem, não vamos falar de cada um porque não é o caso. Mas assim como na doutrina da justificação, na doutrina da santificação o principio é o mesmo. Na primeira, nossa justiça se fundamenta na fé no sacrifício e morte de Cristo em nosso lugar, ou seja, como deu entender Paulo e disse Lutero: “não nos tornamos justos, mas somos declarados justos”, dai a expressão tomada emprestada do termo jurídico: justificados. (Rm 3: 24-28). Na segunda doutrina não nos tornamos santos, somos declarados santos pelos méritos da vida de Jesus uma vez que ressuscitamos pela fé para uma nova vida juntamente com ele, daí a expressão santificados.

Pode parecer que é uma diferença mínima entre “ser santo e lutar contra o pecado”, e “ser declarado santo entendendo que Cristo venceu o pecado em nós”. Mas a não observância desse detalhe é que tem feito-nos perder o foco da mensagem central da Bíblia: CRISTO É TUDO! Por isso tantas mensagens “cristãs” de autoajuda, motivação, vitória, amor, perdão, paz, fé, felicidade, mas todas estas mensagens colocam o homem no centro, pensando que a partir dele mesmo pode ser melhor e mais feliz. Essa é a inversão de valores que chamamos de teologia cristocêntrica para teologia antropocêntrica, a última é uma contradição de termos, porém a que mais se prega e se crê por ai.

Alguns podem dizer que não fomos santificados, mas estamos sendo santificados. Essa ideia de estar num processo de santificação por esforços próprios, no sentido de ser “melhor” ou pecar menos, é uma ideia católica romana que os protestantes assimilaram tão bem ou melhor que seus antecessores. O que podemos e devemos agora é como disse Paulo em 2 Co 3.18:

“E todos nós, que com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor, segundo a sua imagem estamos sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito.”

Ao contemplar a glória do Senhor que é a sua Palavra Viva com sinceridade e entendimento, aqueles que são “ao mesmo tempo santos e pecadores”, estão sendo transformados, não é que eles se transformam, o verso termina dizendo: “a qual vem do Senhor”. Esse é o verdadeiro processo de santificação. Ele(a) não se torna mais santo, mas se torna mais humano. Faz-me lembrar uma charge onde o bonequinho orava a Deus dizendo e batendo as mãos no chão e ao peito:

– Senhor sou tão santo! Tão bom, tão melhor e mais inteligente que as outras pessoas! Mas o que faço para ser mais santo? – Seja mais humano. – Deus responde.

Lembra-se quando no primeiro capítulo do livro de Gênesis, Deus disse: “façamos o homem a nossa imagem e semelhança”? Pois bem, quando com a face descoberta comtemplamos como por espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, não é que estamos num processo de divinização por nossa capacidade, mas num processo de humanização pelo poder de Deus. Quanto mais conhecemos a Deus, mais homem e mulher nos tornamos, e se isso não estiver acontecendo é porque estamos multiplicando apenas religião hipócrita ou filosofia de boteco, bestializando-nos cada vez mais, tornando-nos intolerantes, julgadores, achando-nos mais conhecedores, capazes e melhores que os outros “pobres ignorantes”.

O processo de santificação pode também ser entendido por processo de humanização. Em nosso inconsciente acreditamos que quanto mais santificados somos, mais anjificados nos tornamos, mais isso não é verdade. Na Teologia Sistemática santificação é o processo pelo qual nos tornamos semelhantes a Cristo. Pergunto: vamos tornando-nos semelhantes a natureza do Cristo em sua divindade sem pecado ou em sua humanidade sem pecado? Não tenho dúvidas que esse processo se dá para a humanidade de Cristo, senão quanto mais “santos” mais “deuses” nos tornaríamos. E o que achamos ser um processo de santificação pode na verdade ser um processo de bestialização. Veja Ef 4.13,14:

Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo. Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente.

Esses dois versículos desmontam essa ideia de ser “mais santo”, pois, diz que a medida que conhecemos o Filho de Deus (não diz ser menos pecador), chegamos a homem perfeito (não diz santo perfeito), e finalmente infere claramente que estamos num processo para chegar a humanidade de Cristo e não a sua divindade. Isso é deixar de ser menino incostante. De maneira que, quer ser santo? Conheça o Santo. Quer virar homem e deixar de meninice? Prossiga em conhecer o Desejado das Nações. A frase “um santo não é alguém bom, mas alguém que experimenta a bondade de Deus” é muito boa, principalmente por vir de um escritor católico francês do século passado, Thomas Merton.

wonderful-lake-landscape-wallpaperComparo o conhecimento – da santidade – de Deus como um rio incomensurável, você não pode beber toda sua água, mas pode de coração ofegante, dobrar os joelhos vacilantes, apoiar os pés resvalantes e saciar a sede afundando as duas mãos trêmulas e fracas retirando-as cheias de água cristalina e pura. Pode não ir até o fundo a encostar o pezinho em suas profundezas, mas pode fechar os olhos, prender a respiração e entrar de cabeça em sua superfície e deliciosamente mergulhar por sua margem. Mas ao contrário do rio que quanto mais fundo, escuro, sem ar e maior a pressão, em Deus, quanto mais fundo, mais vida, mais claro tudo se torna… e maior liberdade.

Dito isto, pergunto: “você é santo lutando para não pecar ou pecador lutando para ser santo?” ou ainda “declarado santo entendendo que Cristo venceu o pecado em você?” Acha que tem mais opções? A pergunta o encaixota? Ok, medite no assunto e… diga.

Bom, essa é uma discussão milenar, não acho que podemos resumi-la nalgumas frases, nem achar que se esgota e encerra o assunto apenas numa opinião, estou muito longe tanto de enquadrar a questão num artigo, tanto quanto fechá-la na minha mente, assim como, sou um pecador da pior espécie dado o conhecimento que tenho de minha natureza, mas glória a Deus e somente a Ele que nos amou, sofreu, morreu e ressuscitou e vive pelos séculos dos séculos por todos quantos foram designados para assim crer!

Ao Deus que transcende infinitas eternidades, Senhor de ilimitada criatividade, que se humilhou e nos amou incondicionalmente…

© Lucianno Di Mendonça
www.plurais.net

Texto e comentários publicados originalmente em uvasroxas.com em 19/02/2013

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6 respostas em “VOCÊ É SANTO LUTANDO PARA NÃO PECAR OU PECADOR LUTANDO PARA SER SANTO?

  1. Provérbios, capítulo 11, versículo 25: “quem é bondoso progride na vida; quem ajuda será ajudado”.Deus usou muito você quanto a tal artigo ,bem explicado e feito.Você me lembrou o Apostolo Paulo rs em alguns pontos.Precisava de algo assim , para reconhecer que a mais opções em Cristo e que por mais que seja pecadora ele já venceu por mim .Deus abençoe e te dê muita Sabedoria ,além da que já possui.

    • Oii EllaLouise, fico feliz que o artigo tenha contribuído contigo. Obrigado pelo comentário e incentivo. A religião que deveria ajudar, muitas vezes faz o trabalho inverso: coloca mais peso nas pessoas. Deus a abençoe também. Abraço!

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