A DITADURA DA BUNDA

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Vi um documentário de alguns artistas e escritores falando sobre a bunda, diziam como essa parte do corpo feminino afeta o comportamento e cultura brasileira. Realmente é difícil tirar da cabeça do brasileiro a bunda e, retirar das bundas de muitas brasileiras seu cérebro.

Certa vez, uma moça ficou interessada num rapaz, bem como, querendo um relacionamento mais duradouro e monogâmico além das baladas e finais de semana (desejo e escolha dela). A primeira conversa foi pela net, e sem nunca terem conversando pessoalmente, enviou a ele fotos apenas de calcinha, ao que o rapaz ficou perturbado, primeiro com a beleza e possível rigidez de sua retaguarda, depois, com a maneira dar sua intimidade a conhecer sem nunca terem se encontrado. Não que ele não tenha gostado, mas o efeito no relacionamento que nem havia começado deu uma murchada. E se houve estímulo da parte dele em incentiva-la a fazer isso, ficou claro para os dois quais eram suas intenções e desejos, e quanto a isso, não deveria haver motivo para decepção de ambos.

O foco aqui não é sobre o que se mostra ou deixa de mostrar, o que se faz ou não com o corpo. Acho bonito, tenho padrão próprio de beleza, tanto em mulheres quanto em homens, respeito e estimulo totalmente as liberdades e escolhas individuais – isso é questão de foro íntimo, cada um decida o que tornará público ou não, e quem não gostar, chore na cama que é mais quente. Questiono o peso e a prioridade que se dá as nádegas em detrimento do que vai dentro da caixa encefálica. O que não entendo é algumas mulheres reclamarem que está faltando homem, mas, sua beleza e juventude está sendo usada para atrair homens tão ou mais fúteis que elas. Juízo de valores a parte, concorda que para alguém que pretende um relacionamento além de sexo, antes de chamar atenção (somente) para as curvas vívidas, floridas e sem guardrail – que provável e futuramente tomarão linhas retas, quadradas, até perder o encanto, poderia chamar mais atenção por outras características, como por exemplo, um bom e inteligente diálogo?

Aliás, sobre o “belo”, quando Vinicius de Morais disse para as feias o desculparem, pois beleza é fundamental, certamente não deixou a bunda de fora de seu pensamento, mas, o buraco de seu raciocínio era mais em cima, o poeta dizia sobre enxergar beleza em tudo, do maravilhar-se com a complexidade do simples, do ficar perplexo diante daquilo que palavras não podem exprimir, tanto que diz: “que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de flor”.

Gabriel, o pensador, nos anos de 1990, compôs a música “lôraburra”, muitas pessoas o criticam por achar que ele foi preconceituoso contra as loiras, mas para isso é só ver toda a letra e prestar atenção, e constatar que não é esse o caso. Na primeira estrofe diz:

Existem mulheres que são uma beleza,
mas quando abrem a boca, hum, que tristeza,
Não é o seu hálito que apodrece o ar,
o problema é o que elas falam que não dá pra aguentar.
Nada na cabeça, personalidade fraca, tem a feminilidade
e a sensualidade de uma vaca.
Produzidas com roupinhas da estação,
que viram no anúncio da televisão.
Milhões de pessoas transitam pelas ruas,
mas conhecemos facilmente esse tipo de perua,
bundinha empinada pra mostrar que é bonita
e a cabeça parafinada pra ficar igual paquita.

Imagino algumas mulheres, se pudessem colocariam em seu RG não uma foto ¾ de seu rosto, mas uma foto A4 de sua bunda; onde deveriam assinar, colocariam as medidas do quadril e bustos; na digital, linhas nanométricas de estrias; no campo naturalidade, se tem ou não silicone; onde declara doador ou não de órgãos e tecidos; doa tudo, menos a bunda, pois esta quer levar intacta para o além, com a ordem explícita e irrevogável de acondicionarem seu corpitio no caixão, de bruços, com a bunda, literalmente, virada para a lua.

Voltando ao documentário sobre a identidade brasileira, mesmo entre os escritores e artistas citados e entrevistados, suas obras, tempo e vidas não gira em torno de uma bunda ou várias delas, pelo contrário, foram e são pensadores que produziram e contribuíram muito com a arte e cultura do Brasil, a exemplo de Vinicius de Morais. A falta de democracia em nosso país é evidente e superabunda em tudo. Além da tirania das bundas, vemos outra ditadura, agora na música, onde o sertanejo universitário tornou-se em absolutismo musical e cultural. Mais uma vez: não sou contra isso, outro dia fui numa boate desse estilo musical em Goiânia com alguns amigos, e curti muito.

Como que um país vai pra frente se a ditadura na música, dança, tv, literatura, revistas e pensamento manipulam as massas, fazendo olhar e apontar somente pra trás e para baixo? Vide a música oficial da Copa de 2014 com Jennifer Lopez, Claudia Leitte e Pitbull, reafirmado ao mundo inteiro os estereótipos que criamos sobre nós mesmos. Vi alguns “experts” da publicidade e empreendedorismo chamando tais estereótipos de: marca. What? Marca? Só se for de uma bolada na cara. Aliás, sobre a Copa, vide tudo que políticos bundões – que não honram ‘as calças’ que deveriam tampas suas vergonhas, têm feito por trás dos panos na Copa, nem se importam mais em não tampar a cara e mostrar somente suas bundas escrotas.

Entende onde quero chegar? Que a democracia contemple os abundados, os pós-bundados, os desbundados e anti-bundados, os que não tem “nadica de nádegas“, os que curtem Rock, música clássica, forró, bossa nova, sertanejo, enfim, em todas as áreas, sejamos democráticos e que valorizemos mais a diversidade cultural com inúmeros gêneros, estilos, gostos, bem como, as artes plásticas, cinema, educação, conhecimento, além da superficialidade de coisas efêmeras, sensoriais, futebolísticas, carnavalescas, valeskas e animalescas.

E se Carlos Drummond de Andrade disse que a bunda é engraçada, sorri, que são duas luas gêmeas, ondas batendo numa praia infinita, que a bunda é bunda e redunda, vejamos quem é Drummond e tantas outras coisas sobre as quais ele falou. Evidentemente, Drummond, jamais cometeria o deslize de dizer que burrice, ignorância e estupidez são qualidades, da mesma forma, não diria que não observava e se inspirava em uma bunda passando alegre e harmoniosa pelo calçadão de Copacabana. É aí que não entendo a falta de democracia e prioridade em nossa nação. Mas agora entendo porque Rachel Sheherazade sofreu a perseguição que sofreu por emitir uma opinião (não que não tenha bunda), e Popozuda tem o sucesso que tem, e diz o que diz (não que não tenha cérebro). Depois desse documentário, convenço-me definitivamente que no Brasil bunda é documento, atestado, publicado, registrado, objeto de fé e veneração.

O que mais acho interessante é que em qualquer sistema ditatorial, os maiores oprimidos são os que exercem o poder. Os maiores dominados são os dominadores, estes não tem opção, vivem em função de seus mundicos governados por um regime duríssimo e sem oposição, onde apenas um decide por todos, e quem não se submeter que sofra as penalidades. Triste é quando os ditadores e ditadoras perdem o poder, perdem os holofotes e flashes, seus governos caem, literalmente. Já não há quem os obedeça, não há quem as deseje como antes, através de golpes seguidos de golpes, o poder muda de mãos e bundas, e como disse o poeta, o mesmo que houvera escrito que a bundas são engraçadas: “a festa acabou, e agora José?”

Diante desse quadro social da retaguarda brasileira, outro dia ouvi uma professora ironicamente dizendo: “eu deveria de malhado bunda ao invés de fazer curso superior”. Conheço mulheres que malham bunda, perna e tudo mais, mas estudam, trabalham, pensam, etc, cuidar do corpo e torná-lo mais bonito é inteligente e saudável, se puder fazer os dois, ótimo! Mas priorize a segunda opção, com o tempo a bunda cai, mas os benefícios ficam.

E quanto a você, abaixo ou não a ditadura? E se não concorda com o teor do artigo, não tem problema, o importante é dar liberdade ao outro expressar seu pensamento.

© Lucianno Di Mendonça
www.plurais.net

Para assistir ao documentário: clique aqui

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2 respostas em “A DITADURA DA BUNDA

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