About me about Neverland

10679peter-2

……Quando eu era criança, havia um cesto trabalhado de um fino cipó retorcido entre a parede e a lateral do guarda-roupas no quarto de hóspedes onde escondia tesouros inestimáveis. O acesso a esse quarto era por duas portas, uma dava para o corredor, a principal, e a outra, era no meio de uma parede do quarto onde eu e meu irmão dormíamos, era nossa passagem secreta.
….…Havia de quase tudo um quase nada de coleções: centenas de canhotos de cheques do meu pai, gibis, moedas antigas que meu pai recebera de herança do meu avô numa lata sem tampa de Farinha Láctea, selos recortados de cartas, retratos, calendários de bolso de propagandas de empresas, botões novos ou de camisas usadas, embalagens de doces e chocolates, etc.
….…Se estava alegre ia para lá, se ficava emburrado, grilado (e todos os bichos nervosos com final ado) ia para trás do guarda-roupas também. Era a minha Neverland, ficava horas e horas no meu cantinho do pensamento, minha ilha perdida, meu mundo da lua, meu universo numa casca de nós.
….…Mas o tempo passou, a casa foi reformada, a passagem secreta demolida, o quarto de hospedes virou sala; mudei de casa; os canhotos de cheques queimados, as moedas se perderam, os gibis carcomidos de ratos, os selos recortados de cartas foram para o lixo, os calendários se perderam no tempo, os retratos rasgados ou sumidos, um ou outro estão nalgumas gavetas ou dentro de caixas embaixo de camas por ai. My old Neverland ended.

…….Who don’t have Neverland? Only Peter Pan and Michael Jackson have?

…….Hoje meu cantinho é escrever. Meu lado oculto da lua minguante. Apesar que, algumas pessoas disseram-me, e leio sobre também, que tenho que definir para quem escrevo, que grupo de leitores quero me comunicar. Concordo, tanto que estou procurando essas pessoas, não sei se elas existem, como Descartes, nem sei se existo, pois, outro dia minha mãe disse que não existo, ora, se a pessoa de quem vim de dentro disse que não existo, o que sobra para mim dizer de mim mesmo? Mas pense comigo, se minha mãe disse-me que não existo, logo, existo. Duvido de poucas coisas, acredito em menos coisas ainda. Mas uma coisa sei além de nada: escrevo, logo, resisto.              
…….No meu universo do não sempre, guardo alguns textos infantis; caduquices meninas; versos reversos; contos que conto nos cantos; cartas jogadas ao mar em garrafas a nau; onde coleciono lágrimas; canhotos de cheques de tristezas sem fundo; historias que não estão no gibi; embalagens de chocolates passados e doces fracassos. Além do que, sou meu primeiro leitor de histórias que ainda não existem. Essa é a forma que encontrei de ir escrevendo-me pelo caminho, ainda que, os calendários tenham aumentado de tamanho e meus dias estejam cada vez menores e mais perto de seu ocaso.
…….Ninguém sabe, somente eu, somente você: aos manuscritos vou várias vezes ao dia, noite, madrugada. Sabe essas bobeiras que temos sem eira nem beira? Leio tudo que escrevo várias vezes, centenas, gosto de olhar e fechar os olhos, contar até dez com o rosto escorado no braço e numa árvore cujas folhas são letras, brincar de esconde-esconde com as palavras, procurar e finalmente… me perder.
…….Enfim, signos gráficos é minha terra do nunca, é onde o Verbo se faz substantivo comum, vírgula, pronome, pingo no i, antônimo, entrelinha, interjeição, artigo, número singular, impar, plural, ponto final, interrogação e exclamação. Personagens recebem vida, pessoas reais tem histórias contadas, os capitães-ganchos são outros, leitores se reconhecem em novos mundos velhos. Aqui é o lugar que substantivo comum encontra sentido e compõe uma oração com o verbo de ligação.
…….Então , vamos combinar assim: se você não contar meu segredo pra ninguém, reservarei-lhe o cantinho mais especial, brincaremos juntos com as palavras, voaremos além dos limites da lata destampada da Via Láctea subscrevendo em cadernos caligráficos em multiversos inexplorados e inimagináveis dos Joãos e Marias, Josés e Anas, revirando letras à paisanas sob os astros, pedras, recantos e buracos do mundo que não fazem sentido para ninguém, senão somente para nós. Posso contar com você como meu parceiro de dedinho em nossa Terra do nunca?

My Neverland back
This is about me
This is about us
Foreverland
Lifeland.

© Lucianno Di Mendonça
www.plurais.net

Uma resposta em “About me about Neverland

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s