QUESTÃO DE TEMPO PARA FAZER UMA LISTA

Dedico esse vídeo a dois grupos de pessoas:
1- À quem tem amigos;
2- Aos que sofrem.
Pode parecer óbvio que todos fazem parte de um ou outro grupo, mas isso é um engano fundamental. O que mais tem são pessoas “felizes” e sem amigos.
Portanto, as pessoas à quem dedico essa mensagem, sabem que: ter amigos é raro, sofrer é condição para existir. Como disse Clarice Lispector em A hora da estrela: “Que há de se fazer com a verdade que todo mundo é um pouco triste um pouco só”.

Percrustantemente,
Lucianno Di Mendonça ©
http://www.plurais.net

NÃO É DEUS QUE ABENÇOA AS PESSOAS QUE SACRIFICAM NA IGREJA UNIVERSAL?

Captura de Tela 2015-03-22 às 12.24.25

O pastor Arnaldo, comediante, publicou um texto meu que fala dos 10 mandamentos do dízimo da Igreja Universal, e isso gerou alguns comentários no blog. Um deles, o rapaz quis saber como entendo o “fato” dos testemunhos de prosperidade da IURD, como se tudo que mostram fosse verdade, querendo saber qual a relação da benção de Deus com o sacrifício de tais pessoas. O leitor pergunta num trecho de seu comentário: “Como funciona isso? Não seria Deus ajudando essas pessoas?” Publico esse texto, pois, essa é a estratégia de marketing que a IURD mais usa. Abaixo minha resposta:

“Obrigado pela oportunidade de esclarecer sobre seu comentário, muito pertinente sua pergunta. Essa é a objeção mais recorrente quando tratamos da “teologia da prosperidade”. A discussão vai longe quando falamos com membros da seita, pois, normalmente, eles deixam o foco do diálogo e partem para subjetividade, repetição de clichês e acusações que você é endemoniado, caído, etc. Irei dividir minha resposta em alguns pontos, penso que é suficiente para mostrar quão grave é o uso dessa estratégia de marketing religiosa. Ouça também a pregação do Ed René Kivitz, que deixo o link no final, é muito esclarecedora sobre a questão.

Vamos aos pontos: sol-e-chuva

1 – GRAÇA COMUM. A Bíblia diz que tudo que é bom vem de Deus, que o sol nasce sobre justos e injustos, diz também que os filhos das trevas são mais hábeis que os filhos da luz. Não estou dizendo que os iurdianos são filhos das trevas, há muitas pessoas lá que temem a Deus, são honestas, etc, só estou dizendo que Deus abençoa até quem é filho das trevas, afinal, Deus é bom para com todos, membros da IURD ou não.

2 – TRABALHO. Um ponto positivo da IURD é que eles estimulam as pessoas a trabalhar e serem empreendedoras, claro que, não fica de graça, o fazem para gerar grande fonte de renda para seus cofres para construção de seu império de poder. Tínhamos um casal de amigos, inteligentes, trabalhadores e talentosos em seu negócio, estavam prosperando muito. O rapaz pegou um dinheiro no banco para pagar funcionários, foi seguido por bandidos, próximo de sua casa, ao receber voz de assalto, sem saber o que fazer e no momento de desespero, houve uma rápida troca de palavras, quando o bandido tirou a arma para atirar, meu amigo estendeu a mão pedindo para não atirar, a bala atravessou sua mão, atingindo e matando-o. Não morreu na hora, deu tempo de sua mãe chegar para morrer em seus braços ensanguentados. Ele tinha um “cartão de dizimista fiel” no bolso da camisa. O pastor havia orientado que era para andar com o cartão no bolso, pois, seria sua proteção contra assalto, bala perdida, etc. quem quer dinheiro

3 – PROBABILIDADE. Apesar de estar diminuindo, a IURD tem milhões de adeptos, é natural que alguns fiquem ricos e outros permaneçam pobres, mas TODOS “na fé” dando tudo que têm. Seria como Silvio Santos fazer marketing do “baú da felicidade” se aproveitando dos que ganharam e desconsiderando a grande massa que perde. A diferença é que Silvio Santos não usa o nome de Deus, não faz a pessoa dar tudo, não diz para deixar de pagar outras contas para fazer uma “fézinha” nas apostas de sua loteria, não diz que TODOS que “apostarem” com “fé” ficarão ricos, e mais importante, o dono do SBT é um homem íntegro. Se você ouviu crédulos da IURD dizendo que ficaram ricos, também conhece outros tantos que nunca colocaram os pés numa igreja e da mesma forma e até mais, se tornaram multimilionários. No Brasil, milhares de pessoas ficam milionárias todos os anos, tem religiosos de várias denominações, ateus, agnósticos, mendigos, médicos, engenheiros, analfabetos, cortadores de cana, vendedores ambulantes, engraxates, etc. Claro que, em 200 milhões de habitantes são poucos, mas se o governo começasse a pegar esses exemplos para dizer o quanto o governo é bom, seria muito fácil de enganar ainda mais. Mind-Control

4 – DISCURSO. Quando a seita universal era pequena seu discurso era “somos bons porque somos poucos”, hoje é “somos muitos porque somos bons”. Ou seja, o marketing muda conforme muda a conveniência. Os pastores e bispos aproveitam da generosidade, pobreza e analfabetismo do povo brasileiro para estabelecer um discurso religioso proselitista, fundamentalista, massacrante e alienante.

5 – INCOERÊNCIA. Conheço pessoas que são pressionadas pelos pastores para darem “testemunho” de como ficaram ricas, mas a pessoa diz: “pastor, eu prosperei, mas meu casamento está uma bagunça, meus filhos nas drogas, etc”, o pastor responde: “minha filha, continue na “fé”, vamos falar somente de “prosperidade”, mas diante das câmeras o pastor força falar de outros assuntos, e, o membro fica com medo de contradizer o “homem de Deus” e acaba maquiando a realidade, mentindo noutras áreas. palha-assada

6 – GANÂNCIA. Muitos testemunhos espetaculares são mentirosos ou exagerados, tenho uma amiga que, no início dos anos 2.000 tinha uma empresa de seguros, trabalhava como escrava para dar dinheiro para a seita, movimentou muito dinheiro e estava constantemente na mídia e nos palcos da IURD, resultado após alguns anos: ficou presa por várias semanas, pois, o marketing e o movimento financeiro de sua empresa foi tão grande que perdeu o controle, confiou profissionais em pontos estratégicos da empresa, foi roubada e enganada, ficou pobre, devendo, e ainda na cadeia por sonegar impostos e falsificar documentos, que achava que estavam sendo pagos e emitindo documentos legalmente. Não estou dizendo que foi culpa da seita, quero dizer que, a maioria dos “testemunhos” são mentirosos e efêmeros, a pessoa não permanece naquele glamour o tempo todo, e quando o castelo de cartas marcadas desmorona, os mercenários e lobos já extorquiram o que podiam, e agora, ninguém fala do resultado final, vão para os próximos “testemunhos” e o resto que se exploda. Conheço outro casal que deu a única FAZENDA que recebeu de herança, foi um escândalo na família e cidade, apostaram que iriam receber muitas vezes mais, mas perderam quase tudo, sobrou alguma coisa, mas nunca mais viram uma poeira do que deram para a seita. Os exemplos são inúmeros, mas os pastores não falam que a maioria vai permanecer pobre ou vai ficar pior, usam os raros exemplos e os potencializam para enganar os desavisados, inocentes e gananciosos. charge_tiririca

7 – ANALFABETISMO FUNCIONAL. O Brasil é um país de analfabetos funcionais. O evangelho de Cristo NÃO TEM ABSOLUTAMENTE nada haver com ficar rico. O povo está tão sem noção e ganancioso que não consegue distinguir a mensagem do evangelho de um discurso de auto-ajuda gospel para ficar rico. Os cursos do SEBRAE e palestras do Daniel Godri fazem isso muito melhor e com honestidade. Ainda que tudo o que se mostra na Universal fosse verdade (que não é), o que isso tem haver com o evangelho de Cristo? As pessoas perderam a vergonha em dizer que estão “buscando” a Deus para ficarem ricas, e ainda alimentam esse discurso, muitos acreditam nisso, e pior, estão girando a ciranda maldita da “teologia” da “prosperidade”. Poderia dar vários exemplos de famílias destruídas, que ao longo do tempo, deram dezenas de “testemunhos” nos palcos da seita e até na TV, e hoje estão destruídas, sem forças para recomeçar, sem apoio da “igreja” e, tidas como rebeldes e endemoniadas pela seita. Para averiguar o que estou dizendo leia o Novo Testamento, não precisa acreditar no que estou dizendo, verás que o que se faz nos palcos e bastidores da IURD é nojento. Ainda bem que você não frequenta a seita, mas vá lá, mais do que ouvir um “pastor” performático e treinado desde criança para fazer as pessoas darem “voluntariamente” todos os bens e dinheiro que possuem, converse com algumas pessoas quando elas descerem do picadeiro, veja o quanto não conhecem nada da Bíblia, o quanto são analfabetas funcionais e como somente papagaiam o que ouvem dos “pastores” e “bispos”. Para cada “testemunho” destes que você citou, pode ter certeza que milhares de famílias estão arrasadas por um dia terem acreditado nisso e até terem sido um desses “testemunhos de prosperidade”. Essas histórias que lhe contei, vistes alguma nos palcos da IURD ou no youtube como as que você citou?

8 – Ouça o audio desse link que explica detalhadamente como funciona esse esquema das igrejas neopentecostais, evidentemente, não são somente as “neos” que fazem isso, mas essa corrente religiosa usa e abusa de tudo que é falado nesse audio: https://www.youtube.com/watch?v=GfpaCkrP5wY

Como eu disse anteriormente, não dedico tempo para falar nesse assunto, mas não posso ser covarde em, conhecendo muito bem esse esquema, permanecer calado, enquanto muitas pessoas ao meu lado estão caindo nesse engodo, se apenas uma delas abrir os olhos, valeu a pena. Se alguém tivesse feito isso comigo a 12 anos, talvez eu seria essa única pessoa que teria aberto os olhos, digo isto, pois, procurei informação entre alguns amigos e em literatura cristã na época, mas não tinha larga informação como hoje, e também na IURD não era tão bagunçado como vemos hoje em dia, está cada dia pior.

Grande abraço e que Deus abençoe você e sua família.”

© Lucianno Di Mendonça
www.plurais.net

SÁBADO OU DOMINGO?

IGREJAPara muitos, o que propomos a reflexão agora faz pouco e nenhum sentido, mas para milhões e milhões de cristãos é uma questão importante em sua religiosidade: há um dia específico da semana para adorar a Deus? Seria Sábado ou Domingo?

Outro dia acompanhei parcialmente um debate num site e foi um dos artigos mais comentados chegando a mais de 300 comentários até o dia que entrei pela última vez, mas o foco era se o dia correto é o primeiro ou o sétimo dia da semana. A pouco mais de um ano, ganhei de uma pessoa um DVD com 30 pregações de um pastor de 30 minutos cada, e o tempo todo fazia uma ginástica teológica mirabolante para convencer os ouvintes que devemos guardar o sábado e, não fazê-lo constitui-se pecado grave, às vezes, os argumentos eram tão grosseiros, a religiosidade tão agressiva que chegava a ser engraçado, inclusive, dizendo que das tábuas da lei mosaica, o quarto mandamento é o mais importante, imagine aonde ele tem que ir e os artifícios que usa para chegar a essa interpretação.

Uma das coisas que mais me assusta no cristianismo institucionalizado é seu poder de produzir discussões intermináveis sobre assuntos não fundamentais da Bíblia, por isso publico esse artigo, após me deparar com essa pergunta de uma amiga.

Mesmo em detrimento do pastor sabatista e sua teologia tendenciosa, se fosse para eu escolher um dia, seria sábado, apenas “se” fosse, pois, se os defensores do sábado ou domingo como dia do Senhor usam a mesma Bíblia para defenderem suas teses, ficaria com o sábado; os “domingueiros” usam a ressurreição de Jesus, algumas passagens de Atos, uma de Apocalipse, e a tradição cristã nos primeiros séculos. Os sabatistas usam o AT e o quarto mandamento, na minha opinião teria mais base como doutrina, pois, não há no NT uma ordem específica para mudar o dia para domingo, apesar da tradição cristã que vemos a partir do livro de Atos.

Particularmente não sou nem sabatista, pois, no Antigo Testamento, reunir o povo de Deus no sábado não era suficiente para dizer que se guardava o dia de descanso, havia inúmeras outras ordens, e nem sou domingueiro, pois, no Novo Testamento não há uma clara indicação que o dia do Senhor mudou e que constitui-se pecado não reunir no dia da ressurreição ou primeiro dia da semana.

Abaixo a transcrição de um texto no blog dos bereianos:

“Lutero insistiu que os trabalhadores devem ter um dia de repouso, quando podem então reunir-se para ouvir a Palavra, orar e louvar a Deus. Mas qual dia seja, não importa, pois todos os dias são iguais (Rm 14.5). Calvino, do mesmo modo, insiste que Cristo é o cumprimento do sábado, o que resultou na abolição desse dia: “Distante deve estar, portanto, dos cristãos a supersticiosa observância de dias” (Institutas II, VIII, 31).”

Veja o que uma amiga, Rilda Santos, disse:

“Talvez a pergunta mais correta seria: Nos reunimos no dia de descanso do Senhor ou no dia da Sua ressurreição? Bem, essa seria uma pergunta. Outra poderia ser: Deus quer que fiquemos presos a um dia específico ou o sábado serviu apenas de modelo? Assim sendo, todos os dias não deveriam ser santificados a Ele?”

Enfim, não pretendo que alguém se convença da minha opinião numa questão tão antiga, escrevendo apenas algumas linhas, e mesmo que houvesse uma bibliografia que corroborasse o que estou dizendo, não teria a pretensão de encerrar o assunto. Mas, se haverá alguma pergunta que o Senhor fará no último dia (não creio que haverão perguntas), não seria para os domingueiros “porque vocês se reuniram no dia errado?” ou o contrário para os sabatistas. Mas outras perguntas seriam feitas, como “porque vocês causaram divisão quanto ao dia de adoração a mim que Sou ATEMPORAL?” ou “porque vocês se reuniram tanto em tantos dias da semana a vida inteira, mas não pregaram o evangelho?”.

© Lucianno Di Mendonça
www.plurais.net

ABOUT ME ABOUT NEVERLAND

10679peter-2

……Quando eu era mais criança, havia um cesto trabalhado de um fino cipó retorcido entre a parede e a lateral do guarda-roupas no quarto de hóspedes onde escondia tesouros inestimáveis. O acesso a esse quarto era por duas portas, uma dava para o corredor, a principal, e a outra, era no meio de uma parede do quarto onde eu e meu irmão dormíamos, era nossa passagem secreta.
….…Havia de quase tudo um quase nada de coleções: centenas de canhotos de cheques do meu pai, gibis, moedas antigas que meu pai recebera de herança do meu avô numa lata sem tampa de Farinha Láctea, selos recortados de cartas, retratos, calendários de bolso de propagandas de empresas, botões novos ou de camisas usadas, embalagens de doces e chocolates, etc.
….…Se estava alegre ia para lá, se ficava emburrado, grilado (e todos os bichos nervosos com final ado) ia para trás do guarda-roupas também. Era a minha Neverland, ficava horas e horas no meu cantinho do pensamento, minha ilha perdida, meu mundo da lua, meu universo numa casca de nós.
….…Mas o tempo passou, a casa foi reformada, a passagem secreta demolida, o quarto de hospedes virou sala; mudei de casa; os canhotos de cheques queimados, as moedas se perderam, os gibis carcomidos de ratos, os selos recortados de cartas foram para o lixo, os calendários se perderam no tempo, os retratos rasgados ou sumidos, um ou outro estão nalgumas gavetas ou dentro de caixas embaixo de camas por ai. My old Neverland ended.

…….Who don’t have Neverland? Only Peter Pan and Michael Jackson have?

…….Hoje meu cantinho é escrever. Meu lado oculto das luas de Saturno. Apesar que, algumas pessoas disseram-me, e leio sobre também, que tenho que definir para quem escrevo, que grupo de leitores quero me comunicar. Concordo, tanto que estou procurando essas pessoas, não sei se elas existem, como Descartes, nem sei se existo, pois, outro dia minha mãe disse que não existo, ora, se a pessoa de quem vim de dentro disse que não existo, o que sobra para mim dizer de mim mesmo? Mas pense comigo, se minha mãe disse para mim que não existo, logo, existo. Duvido de poucas coisas, acredito em menos coisas ainda. Mas uma coisa sei além de nadaescrevo, logo, resisto.             
…….No meu universo do não sempre, guardo alguns textos infantis; caduquices meninas; versos reversos; contos que conto nos cantos; cartas jogadas ao mar em garrafas a nau; onde coleciono lágrimas; canhotos de cheques de tristezas sem fundo; historias que não estão no gibi; embalagens de chocolates passados e doces fracassos. Além do que, sou meu primeiro leitor de histórias que ainda não existem. Essa é a forma que encontrei de ir escrevendo-me pelo caminho, ainda que, os calendários tenham aumentado de tamanho e meus dias estejam cada vez menores e mais perto de seu ocaso.
…….Ninguém sabe, somente eu, somente você: aos manuscritos vou várias vezes ao dia, noite, madrugada. Sabe essas bobeiras que temos sem eira nem beira? Leio tudo que escrevo várias vezes, centenas, gosto de olhar e fechar os olhos, contar até dez com o rosto escorado no braço e numa árvore cujas folhas são letras, brincar de esconde-esconde com as palavras, procurar e finalmente… me perder.
…….Enfim, signos gráficos é minha terra do nunca, é onde o Verbo se faz substantivo comum, vírgula, pronome, pingo no i, antônimo, entrelinha, interjeição, artigo, número singular, impar, plural, ponto final, interrogação e exclamação. Personagens recebem vida, pessoas reais tem histórias contadas, os capitães-ganchos são outros, leitores se reconhecem em novos mundos velhos. Aqui é o lugar que substantivo comum encontra sentido e compõe uma oração com o verbo de ligação.
…….Então , vamos combinar assim: se você não contar meu segredo pra ninguém, reservarei-lhe o cantinho mais especial, brincaremos juntos com as palavras, voaremos além dos limites da lata destampada da Via Láctea subscrevendo em cadernos caligráficos em multiversos inexplorados e inimagináveis dos Joãos e Marias, Josés e Anas, revirando letras à paisanas sob os astros, pedras, recantos e buracos do mundo que não fazem sentido para ninguém, senão somente para nós. Posso contar com você como meu parceiro de dedinho em nossa Terra do nunca?

My Neverland back
This is about me
This is about us
Foreverland
Lifeland.

© Lucianno Di Mendonça
www.plurais.net

O PASTOR SEGUNDO O NOVO TESTAMENTO

Sem Título cópia    Muito se discute o que compõe as atribuições de um pastor, até onde vai sua influência; autoridade; se pode interferir na vida das pessoas, até que ponto; se ele pode dizer que tem ovelhas ou apenas cuida e orienta as ovelhas do Sumo pastor; se sua “unção” lhe é como um pedestal onde permanece intocável, etc. Mas para nossa triste constatação, na maior parte da cristandade, nada se discute, pelo contrário, o pastor falou a água parou e, se possível, faz a água correr para cima, e ainda, se o fluxo da corredeira não fluir conforme determinado [sic], como sempre ocorre, diz-se que corre para cima assim mesmo – “pela fé”, e ponto final.
……Antes de prosseguir, devemos deixar claro que a palavra pastor não é propriedade particular de uma religião específica, mas uma vocação espiritual, uma responsabilidade e privilégio, enfim, um dom de Deus.
……Especialmente no NT, a partir das cartas de Paulo, onde a Igreja de Cristo está estabelecida e, consequentemente, temos a função do pastor, vemos algumas orientações para o ministério pastoral. Vamos basear nossa breve descrição no texto de 1 Timóteo 3. Se pudéssemos resumir todas as credenciais naturais e espirituais do pastor numa só palavra seria: testemulho. Paulo chama tal responsabilidade de “excelente obra”, ao mesmo tempo em que equilibra o pastorado – episcopado,  sobre três bases fundamentais, as quais chamaremos de testemunhos.

  1. Quanto aos que estão de fora: irrepreensível, honesto, vigilante, não dado ao vinho, moderado, apto para ensinar, inimigo de contendas, não ganancioso, sóbrio, hospitaleiro, não espancador, marido de uma só mulher, respeitável, sincero, não apegado ao dinheiro.
  2. Quanto a sua casa: que governe bem sua própria casa, tendo seus filhos sob disciplina, com todo o respeito.
  3. Quanto a si mesmo: não inexperiente, para que não se torne orgulhoso; conservando o mistério da fé.

……Não somente neste texto, mas em qualquer especificidade pastoral no NT não encontramos nada que diga que o pastor tenha que ser: milagreiro, bem-sucedido, MOTIVADOR, teatral, artista, influenciador, assistencialista, carismático, PALHAÇO, mágico, lobista, POLÍTICO, articulado, bem relacionado, inacessível, pop-star, palestrante internacional, consultor financeiro,  estúpido, apedeuta, bronco, etc.
……Enfim, reconheço que é muito difícil exercer biblicamente o ministério pastoral, pois, se fosse para ser “isso” citado no último parágrafo – que compreende o modelo pós-moderno e anticristão que a maioria dos pastores seguem, seria mais fácil, mas não menos nojoso e condenável por Deus.

© Lucianno Di Mendonça
www.plurais.net

[Texto que compõe as provas para o aproveitamento de créditos para o curso de Teologia na Faculdade Teológica Sul Americana em Londrina]

CAMPANHA DA MATRACA FECHADA

et

Campanha poderosíssima para desimpedir e ficar definitivamente livre “dos caminhos neopentecostais”, “quebrar maldições apostólicas”, “anular palavras proféticas”, fazer um “desenpastoramento total”, “apagar dardos inflamados dos levitas”, sair debaixo da “cobertura espiritual” de manipuladores, “desembaraçar nós cegos” nas mentes feitos por falsos profetas e, principalmente, encontrar o fio da meada do Evangelho puro e simples. Você não pode deixar de participar da novíssima campanha:

Não quer abrir O livro, Feche a Matraca!

Essa campanha não é pra qualquer um. Somente para os fortes na ignorância. Destemidos à Deus. Corajosos em rejeitar as Escrituras. Submissos a falsos profetas. Treme e dá enchurrio só de pensar em confrontar as palavras do “ungido” com as palavras do Cristo. “Espiritual” em amaldiçoar os que saíram do seu guetinho religiozinho. Fiel a tradicionalismo da sua “igreja”.

Você cristão, que não vai ler a Bíblia, bateu o pé, deu birra e disse ao Espírito Santo: “não adianta insistir, não leio, não leio, não leio!” Já que não vai às Escrituras meditar, não vai pesar os ensinamentos que recebe com as palavras do Cristo. Não vai pensar. Diz que crê na Bíblia, mas a palavra inicial, mediana e final em suas decisões é do seu papa gospel. Apenas para você, que quem determina a “visão” de sua “igreja” são os concílios evangélicos denominados “concentração de fé, conferências de poder, milagres, impacto, etc”. Entre o pouco que conhece dos livros sagrados e o muito que conhece das apostilas, jornais e livros de sua religião pagã gospel, vê que há inúmeras contradições grotescas e mesmo assim rejeita a Bíblia em servilismo a ordem do homem pecador e mentiroso. Participe da campanha poderosa: Não quer abrir O livro, Feche a Matraca!

O “propósito é muito forte”, fechando sua matraca vai parar de atrapalhar seus amigos e familiares se converterem ao verdadeiro e puro evangelho. Pare de dizer no futebol que “serve” a Deus. Não fale para as colegas na escola que é cristão. Não solte no trabalho nem de brincadeira que é cristão. Pare de mandar imagens em redes sociais com versículos dizendo: “tudo posso naquele que me fortalece”, “falei com Jesus hoje e você?”, “Sou filho do Rei”, “eu curto Jesus”, “o Brasil é do Senhor Jesus”, “Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos”, “Deus é fiel”. Arranque hoje o adesivo do carro que diz: “sou dizimista” e “presente do Papai”. Quando alguém chorando à sua frente sofrendo de dor, gemendo pela manifestação de algum filho de Deus, não diga que vai lhe apresentar seu super pastor para receber uma superoração. Se não tem condições de ajudar, feche a matraca!

A campanha será de quantos meses forem necessários, para que Deus abençoe a pessoa em ter um encontro com a Palavra de Deus. E não menos importante, não frequente cultos antropocêntricos nesse período (de preferência nunca mais), não participe de reuniões evangélicas individualistas, onde vê-se de tudo, menos o Evangelho puro e simples, onde se fala de tudo, menos do Cristo crucificado e ressurreto!

Bem amigos, gostaria de escrever algo mais lightdiet, gostoso, leve, talvez poético, mas certas coisas que ouço e vejo me dão azia e má digestão, em você não? (em breve, podemos fazer a CAMPANHA DO SAL DE FRUTAS ENO – CONTRA AZIA E HERESIA).

Se alguém se ofendeu com a proposta, provavelmente está no grupo de risco para fechar a matraca, mas, se alegrou e também acredita que a Bíblia continua sendo e sempre será a ABSOLUTA palavra de Deus e que foi reduzida a um mero acessório da última moda gospel com capas teen e comentários “paitriarcas” e apostólicos como produto mercadológico, mande o link da campanha para aquele amigo pinhel que grudou no seu pé igual chulé para te levar à “igreja dele” porque você é um “derrotado” e precisa aprender o caminho para se tornar um “vencedor”… como ele claro [sic].

Ah, como poderia esquecer? Uma campanha tem que ter versículos bíblicos para dar um ar de espiritualidade. A referência bíblica para nossa campanha de poder é: NENHUMA. Já que não vai ler mesmo. Pelo menos assim não fazemos de conta mais uma vez. E antes que alguém pergunte se estou participando da campanha, respondo: a fiz a alguns anos, fiquei um bom tempo calado. Depois que me tornei um “rebelde” ao sistema religioso neopentecostal e suas ramificações noutros lugares de sua (des)teologia (dis)torcida da prosperidade, a minha vida nunca mais foi a mesma. Hoje sou um rebelde e subversivo graças a Deus.

Fale da Campanha da Matraca Fechada a um amigo(a) que está sofrendo de lavagem cerebral e está dando sinais de despertamento (antes disso não adianta) e não sabe o que fazer da vida. Não “quebre a corrente” senão “perde” a benção.

© Lucianno Di Mendonça
www.plurais.net

Texto e comentários publicados originalmente em uvasroxas.com em 24/04/2012

ESPIRITUALIDADE CRISTOCÊNTRICA

Christ-Carrying-The-Cross-1564                            Pieter the Elder Bruegel: Christ Carrying the Cross 1564

A alguns dias, vindo de Goiânia sentido ao interior de Goiás, onde moro, conversava com um amigo sobre a dificuldade que os cristãos enfrentam quando a centralidade de Cristo na espiritualidade atual. Apesar de não ser cristão, meu amigo frequenta reuniões evangélicas a mais de 50 anos, mas nunca entendeu o evangelho puro e simples conforme a Bíblia o apresenta. Dizia-me que agora, “finalmente” encontrou um lugar, uma religião em que se fala de caridade, amor ao próximo, família, atualidades e temas “relevantes”, e melhor, não fica falando das “bobagens” da Bíblia e que Jesus morreu para nos salvar. Tentava me convencer que minha pregação é ultrapassada demais, radical demais, bíblica demais, que eu devia ter como referencia certo pastor televisivo que tirou o bigode que ensina sobre “família e temas atuais”. Por outro lado, tentei lhe mostrar como tirar Jesus do centro da Bíblia é uma desonestidade espiritual e intelectual com as Escrituras, pois, esta tem uma harmonia, uma linha racional clara, um contexto imediato e geral, onde o foco principal do livro sagrado do cristianismo é a pessoa de Cristo, e este crucificado. Sair desse foco é constituir-se falso profeta, falso pastor, falso pregador. Dizia-lhe que a questão não é a pessoa falar de família, passos para vitória, como conquistar bênçãos financeiras e espirituais, para isso, basta o “pastor” se tornar um palestrante motivacional, militante político, professor, membro de ONG, do Lions, Rotary, etc. Tudo isso é legítimo, e muitas dessas atividades contribuem com a sociedade, mas, jamais essa pessoa poderia abrir a Bíblia, ler um texto e, dizer que está ensinando o cristianismo em nome do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.

Isso me fez lembrar de duas frases, uma de Martinho Lutero, outra de Billy Graham, respectivamente: A Bíblia não é nem passada, nem moderna; a Bíblia é eterna”; e, “a Bíblia é mais atual do que o jornal que irá circular amanhã”. Paulo alertou a Timóteo o que aconteceria nos últimos tempos:

Sabe, porém, isto, que nos últimos dias sobrevirão tempos penosos, pois os homens serão amantes de si mesmos, gananciosos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a seus pais, ingratos, ímpios, sem afeição natural, implacáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando-lhe o poder (…) sempre aprendendo, mas nunca podendo chegar ao pleno conhecimento da verdade. (1Tm 2.1-5, 7)

Estamos falando de uma dificuldade atual, mas historicamente, esse quadro vem se desenhando ao longo dos séculos, não irei buscar tais referencias para não sair da clareza e objetividade pedida para o texto. Apenas lembrar dois pontos mais recentes:

  1. Revolução Industrial – a efervescência econômica e industrial do séc. XVIII influenciou a cultura ocidental e aos poucos as mentes das pessoas foram sendo moldadas em função do materialismo, indistintamente de classe social. Apenas para citar um exemplo, outro dia, um professor e coordenador de um curso que faço, disse que as pessoas devem escolher suas profissões de acordo que aquilo que mais vai lhes render dividendos, e olha que é uma professor universitário.
  1. Neopentecostalismo – a partir da segunda metade do séc. XX, movimentos religiosos, especialmente evangélicos, começam ganhar notoriedade ensinando que, se a pessoa é filha de Deus, logo, deve fazer por merecer e requerer o melhor de Deus para essa vida, entenda “melhor” como acúmulos e ostentação de riquezas materiais. Tal movimento, no início – como disse o filósofo Sérgio Portella, partia da máxima “somos bons porque somos poucos”, agora mudou para “somos bons porque somos muitos”.

Ano passado fiz 15 anos de caminhada cristã. Os primeiros 10 anos foram tentando aprender o que a Bíblia diz sobre Jesus com pastores perversos que estavam mais preocupados com seu bem estar, conquistas materiais, crescimento numérico e financeiro de sua igreja, alguns até bem intencionados, mas ignorantes. Sou um sobrevivente de uma guerra religiosa e covarde que mata espiritualmente milhões de pessoas no Brasil. O cristianismo tupiniquim majoritariamente está sem Cristo. A cruz virou artigo de moda, acessório de espiritualidade mórbida, relicário de ídolos vazios. Há uma expressão em latim, dita por Erasmo de Rotterdam representando o Renascimento, e dita igualmente por Reformadores como Lutero: ad fontes, que significa: “às fontes”. Veja o início do Salmo 42: “Assim como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus!” Correntes das águas na Vulgata Latina é ad fontes, ou seja, o salmista suspira é pela FONTE que dá acesso a Deus. Se um cristão suspira pelo Eterno, igualmente suspira pela maravilhosa e assombrosa Palavra de Deus. O que sair dessa relação não passa de emocionalismo pedante, piegas, tosco e raso.

E qual é o centro das escrituras? Qual é a maior revelação do amor de Deus? Deixemos Alan Brizotti em seu livro Identidade Cristã citando outros autores dizer:

“A cruz é o símbolo da fé cristã, da igreja cristã, da revelação de Deus em Jesus Cristo. Aquele que compreende corretamente a cruz compreende a Bíblia e compreende a Jesus”. (p. 160)

E Brizotti continua fazendo referência a outro escritor:

“Na teologia histórica cristã a morte de Cristo é o ponto central da história. Para lá todas as estradas do passado convergem; e de lá saem todas as estradas do futuro”. (p. 160)

 Não sem razão Jesus disse: “se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, do seu interior correrão rios de água viva.” Numa época onde o ateísmo militante é uma das ‘religiões’ que mais cresce no Brasil. Num tempo onde o humanismo, materialismo, teologia da prosperidade, autoajuda religiosa, liberalismo teológico, pós-modernismo e pós-cristianismo imperam e atacam o cristianismo ortodoxo por todos os lados, voltarmo-nos para a espiritualidade Cristocêntrica e fazer voz com os poucos que ainda guardam a palavra do testemunho de Deus é vital para cumprirmos nossa missão de pregar o EVANGELHO DE CRISTO a todas as nações.

© Lucianno Di Mendonça
www.plurais.net

[Texto que compõe as provas para o aproveitamento de créditos para o curso de Teologia na Faculdade Teológica Sul Americana em Londrina]