ABOUT ME ABOUT NEVERLAND

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……Quando eu era mais criança, havia um cesto trabalhado de um fino cipó retorcido entre a parede e a lateral do guarda-roupas no quarto de hóspedes onde escondia tesouros inestimáveis. O acesso a esse quarto era por duas portas, uma dava para o corredor, a principal, e a outra, era no meio de uma parede do quarto onde eu e meu irmão dormíamos, era nossa passagem secreta.
….…Havia de quase tudo um quase nada de coleções: centenas de canhotos de cheques do meu pai, gibis, moedas antigas que meu pai recebera de herança do meu avô numa lata sem tampa de Farinha Láctea, selos recortados de cartas, retratos, calendários de bolso de propagandas de empresas, botões novos ou de camisas usadas, embalagens de doces e chocolates, etc.
….…Se estava alegre ia para lá, se ficava emburrado, grilado (e todos os bichos nervosos com final ado) ia para trás do guarda-roupas também. Era a minha Neverland, ficava horas e horas no meu cantinho do pensamento, minha ilha perdida, meu mundo da lua, meu universo numa casca de nós.
….…Mas o tempo passou, a casa foi reformada, a passagem secreta demolida, o quarto de hospedes virou sala; mudei de casa; os canhotos de cheques queimados, as moedas se perderam, os gibis carcomidos de ratos, os selos recortados de cartas foram para o lixo, os calendários se perderam no tempo, os retratos rasgados ou sumidos, um ou outro estão nalgumas gavetas ou dentro de caixas embaixo de camas por ai. My old Neverland ended.

…….Who don’t have Neverland? Only Peter Pan and Michael Jackson have?

…….Hoje meu cantinho é escrever. Meu lado oculto das luas de Saturno. Apesar que, algumas pessoas disseram-me, e leio sobre também, que tenho que definir para quem escrevo, que grupo de leitores quero me comunicar. Concordo, tanto que estou procurando essas pessoas, não sei se elas existem, como Descartes, nem sei se existo, pois, outro dia minha mãe disse que não existo, ora, se a pessoa de quem vim de dentro disse que não existo, o que sobra para mim dizer de mim mesmo? Mas pense comigo, se minha mãe disse para mim que não existo, logo, existo. Duvido de poucas coisas, acredito em menos coisas ainda. Mas uma coisa sei além de nadaescrevo, logo, resisto.             
…….No meu universo do não sempre, guardo alguns textos infantis; caduquices meninas; versos reversos; contos que conto nos cantos; cartas jogadas ao mar em garrafas a nau; onde coleciono lágrimas; canhotos de cheques de tristezas sem fundo; historias que não estão no gibi; embalagens de chocolates passados e doces fracassos. Além do que, sou meu primeiro leitor de histórias que ainda não existem. Essa é a forma que encontrei de ir escrevendo-me pelo caminho, ainda que, os calendários tenham aumentado de tamanho e meus dias estejam cada vez menores e mais perto de seu ocaso.
…….Ninguém sabe, somente eu, somente você: aos manuscritos vou várias vezes ao dia, noite, madrugada. Sabe essas bobeiras que temos sem eira nem beira? Leio tudo que escrevo várias vezes, centenas, gosto de olhar e fechar os olhos, contar até dez com o rosto escorado no braço e numa árvore cujas folhas são letras, brincar de esconde-esconde com as palavras, procurar e finalmente… me perder.
…….Enfim, signos gráficos é minha terra do nunca, é onde o Verbo se faz substantivo comum, vírgula, pronome, pingo no i, antônimo, entrelinha, interjeição, artigo, número singular, impar, plural, ponto final, interrogação e exclamação. Personagens recebem vida, pessoas reais tem histórias contadas, os capitães-ganchos são outros, leitores se reconhecem em novos mundos velhos. Aqui é o lugar que substantivo comum encontra sentido e compõe uma oração com o verbo de ligação.
…….Então , vamos combinar assim: se você não contar meu segredo pra ninguém, reservarei-lhe o cantinho mais especial, brincaremos juntos com as palavras, voaremos além dos limites da lata destampada da Via Láctea subscrevendo em cadernos caligráficos em multiversos inexplorados e inimagináveis dos Joãos e Marias, Josés e Anas, revirando letras à paisanas sob os astros, pedras, recantos e buracos do mundo que não fazem sentido para ninguém, senão somente para nós. Posso contar com você como meu parceiro de dedinho em nossa Terra do nunca?

My Neverland back
This is about me
This is about us
Foreverland
Lifeland.

© Lucianno Di Mendonça
www.plurais.net

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QUIÉN SOY YO

Saudável-pra-cachorro

Já latiram, zoaram, relincharam e berraram que sou um animal. É verdade. Irracional? Penso… que não. Alguém disse que “a vida não é nada mais que uma explosão ocasional de risos sobre um interminável lamento de dor”. Essa frase tem uma verdade que me incomoda… e faz rir.

Não gosto desses animais que o tempo todo dizem que está tudo bem, alto astral, se melhorar vira festa, sempre sorrindo, rolando na lama, focinho empinado, ao cumprimentar dão as patas olhando para outro lado, com aquele mal cheirinho de superioridade. Parece que têm algo a esconder, andando, trotando, nadando, dirigindo, tocaiando os mais avoados e apavorados. Seres de quatro patas rastejantes, criaturas com asas aviltantes. Velozes de duas pernas que não chegam a lugar algum. Irracionais que só pensam ser o número um.

Sou dependente existencial. Não sou bem aceito na sociedade. Se fico a vontade causo desconforto, se almoço gero coceira, se vou fazer caminhada para perder peso pisam na minha cabeça. Só de me olharem sentem asco e repugnância, quando me encostam se lavam com álcool. Alguns sentem ânsia de vômito só de imaginarem que estou por perto. Queria que soubessem que não tenho culpa por ser assim. Volta e meia despejam-me de meu lar jogando-me na privada. Será que eles acham que não tenho família? Por acaso sou algum espécime de cocô para darem descarga em mim?

Sou feio, disforme, desproporcional, arrasto mais que ando, minha cor predominante é cinza para o lado de morto, mais enrugado que shar-pei. Sou mal compreendido, rejeitado, mal-amado. Até fizeram uma homenagem para mim, mas achei que foi deselegante, pois, batizaram uma doença com meu nome. Minha irmã está esperando nenéns, serão centenas de meninos e meninas, mas o médico disse que pessoas como ela não resistem o pós parto e morrem. O que será de meus sobrinhos órfãos nesse mundo cão?

A maior causa de morte infantil é coceira. Muitos quando pequenos, ainda destreinados e inocentes ficam em regiões muito suscetíveis a patas e unhas imensas de nossos inimigos, então nossas criancinhas são dilaceradas sem piedade. Ao mesmo tempo em que nos matam, sem eles não vivemos. O mundo é muito cruel.

Não gosto de chocolate, futebol, festas, odeio cerveja e pizza, abomino banho, minha maior alegria é dar voltinha de carro principalmente se vou na janela, adoro dormir na cama da dona da minha residência debaixo de edredom em tempinho frio curtindo filmes da Pixar em 3D. Quando saio de minha casa, amo contemplar a natureza, às vezes fico estático e absorto deslumbrado com sua beleza inebriante por horas e horas. Contudo, o que mais gosto é de sangue. Sou compulsivo por sangue, se estou banqueteando passo a noite e o dia todo, as vezes vários dias, só paro quando estou a ponto de explodir. Sou tão diferente que quando sinto-me saciado dizem que estou ingurgitado.

INGURGITADO É A MÃE!

Sangue humano é uma comida ruim, perigosa e contaminada, pois, o coração de onde jorra o alimento é sujo, bombeia ódio, amargura, intolerância, preconceito e ignorância. Evito pratos que vão sangue de gente, e quando acontece tenho que tomar Estomazil e Omeprazol, não poucas vezes fui parar no hospital. Certa vez vomitei tanto, senti náuseas, com o corpo tão inchaço e fadigado que tive que fazer hemodiálise. Minha mãe com sua preocupação, levou-me num dos analistas mais eminentes da praça, o Dr. Artrópode Exoesqueleto, fui examinado em várias sessões, mas farei como Cazuza, “vou pagar a conta do analista pra nunca mais ter que saber quem eu sou”.

Não tenho amor-próprio, gosto mais das cachorras que de mim, quando pego no pé dalguma solta por ai, não largo mais. Outro dia fui requisitar asilo político na Sociedade Protetora dos Animais e meu pedido foi indeferido sob a justificativa de que sou um animalzinho de quingentésima categoria e que estão em guerra contra nossa classe. Sai daquela espelunca de cães devoradores revoltadíssimo, cuspindo sangue. Vou fundar a Sociedade Protetora da Sociedade Protetora, serão convidados somente os desvalidos, enjeitados, invisíveis sociais para fazer parte do conselho deliberativo. Abaixo a repressão!

Será que algum dia alguém terá estima por mim ao ponto de ter-me por estimação? Gostaria muito de saber de Leonardo Da Vinci estava pensando em meus iguais quando disse: “chegará um dia no qual os homens conhecerão o íntimo dos animais, e nesse dia, um crime contra um animal será considerado um crime contra a humanidade”. Ah, como queria apenas por um dia, minuto ou segundo que alguém se colocasse em meu lugar, então saberiam o quão difícil e indefinível é saber quem sou. Então, aqueles aos quais chamamos humanos conheceriam a humanidade daqueles aos quais chamam animais.

Outro dia resolvi suicidar. Escrevi um bilhete aos meus familiares, pedi perdão a minha mãezinha, disse que os amo muito, que não chorem minha falta, limpei as lágrimas, elevei os olhos aos montes e perguntei “de onde me virá o socorro?” Com muita demora e dificuldade saí de minha casa em direção a rua, pelo caminho vi minha infância, amigos, o campo de pêlos onde jogávamos bola e bete, a árvore onde a sua sombra chupávamos laranjinhas de sangue de gato, um filme passou na minha frente. Pensei: “o plano é que se não me esmagarem pelos pneus dum carro, serei fritado no asfalto quente… adeus mundo cruel”.

Mas para minha surpresa, no meio da caminhada, na beirada do meio-fio quando ia saltar do precipício, o tempo fechou, raios e violentas trovoadas, toró d’água, e para piorar, a prefeitura interditou a rua para fazer manutenção no sistema de esgoto dos humanos. Meus planos foram por água abaixo; Algo mais forte que minha fortaleza de carapaça reclusa de vaidades doentias impediu-me de cometer aquele ato.

Até aquela tarde em que fora arrastado por todos os meus cantos e entornos mais profundos, minha vida era um lamento interminável de dor… Mas hoje acorreu-me outro contorno para minha existência, grudei na ponta do rabo daquele cachorro farejador de carniça do Sr. Manoel da Feira, fiz tanta coceira, que o fiz correr em volta de seu rabo freneticamente, enquanto eu ria descontroladamente.

Hoje foi meu dia de explosão de risos!

Quem eu sou? Outro dia passeando pelos corredores da igreja, alguém recitou algo dum poeta chamado Álvaro de Campos que dizia:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo

Enfim, carrapato, dizem que sou, muitos sentem ódio alguns pena, mas o que “os que dizem” falam de si mesmos? Estou exausto de querer me ver no mural dos olhos dos que dizem. Finalmente, estou aprendendo a gostar de ser… apenas. Seria essa a quintessência duma criatura única num universo plural?

© Lucianno Di Mendonça
www.plurais.net