QUEM ACONSELHA O PASTOR?

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…….Esse é mais um grave problema quando hierarquizamos, institucionalizamos, engessamos e encaixotamos a Igreja. O ser humano por si mesmo tem a natural inclinação de querer apoderar-se e controlar tudo que o cerca, e farão isso, aqueles que por um ou mais dons espirituais e talentos naturais mais se destacarem. No ministério pastoral não seria diferente. Muitas vezes somos tolos, mas nunca burros, é uma questão de lógica, se o pastor é o maioral, o “pai de todos”, o intocável, o sábio, quem poderá ajudá-lo, aconselhá-lo? Ninguém. Resultado? Pastores e comunidades doentes.
…….Isso é muito comum porque se prega algo que está longe de viver, um pastor que fala de: aconselhamento, do valor da amizade, de como é importante tomar opiniões, de como a natureza humana é corrupta, mas não ensina as pessoas com sua própria vida que todos precisam ajudar e ser ajudados, onde o próprio pastor não busca ajuda, em tal situação, torna-se uma questão de tempo para passar por um esgotamento psicológico/espiritual, talvez irreversível.
…….No livro Ajudando uns aos outros pelo aconselhamento, o autor Gary R. Collins, faz uma distinção entre o dom de aconselhar e o chamado a todo crente como aconselhador, ou seja, nem todos tem o dom, mas todos nalguma medida tem o dever de aconselhar. Esse mesmo princípio vale para o inverso: se todos devem aconselhar, logo, todos devem ser aconselhados, inclusive, pastores e conselheiros. Em outras palavras, quem cuida do pastor, líder, conselheiro e mestre? Todos cuidam de todos.
…….Collins, no capítulo 10, Como ajudar a você mesmo, sugere alguns procedimentos que o pastor ou conselheiro pode tomar nessa difícil tarefa de sujeitar-se ao aconselhamento:

  1. Seja um discípulo de Cristo;
  2. Ande no Espírito;
  3. Cresça na maturidade;
  4. Descubra e desenvolva dons espirituais;
  5. Seja um transferidor de cargas;
  6. Dê uma olhada em você mesmo;
  7. Aprenda a aceitar a você mesmo;
  8. Faça alguma coisa positiva;
  9. Ache um conselheiro;
  10. Lembre se de nosso alvo que é testemunhar a Cristo.

© Lucianno Di Mendonça
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[Texto que compõe as provas para o aproveitamento de créditos para o curso de bacharel em Teologia na Faculdade Teológica Sul Americana em Londrina]

QUAIS OS LIMITES DO ACONSELHAMENTO PASTORAL?

bebes (1)       É muito comum num acidente aéreo, por exemplo, as causas do desastre não são apenas uma, mas várias causas. Em um desastre ministerial ocorre da mesma maneira, pode haver um gatilho, um detonador, a “gota d’água”, mas uma análise ainda superficial constatará inúmeros problemas, que somados numa força sinérgica, destruíram a vida do pastor e outras também.
……..Quando não se aplica uma psicologia séria, equilibrada e multiforme, quando não se prega uma teologia sólida, fundamentada e crucial, quando nos sentimos rei do espaço infinito de nossos (religiosos) mundos numa casca de nós, quando não cuidamos de nós mesmos antes de pretender cuidar dos outros, quando pastores não submetem-se ao aconselhamento mútuo, entre outras tragédias, uma que inevitavelmente ocorrerá será: perder a noção de espaço, ultrapassar os limites do aconselhamento.
……..Um evento que mais exemplifica o que estamos discutindo é quando Jesus no final do capítulo 6 de João, após proferir um de seus discursos mais duros e evangélicos, após mais de 10.000 pessoas com a barriga cheia virarem as costas ao Mestre enquanto ele falava, Cristo vira-se aos Doze e pergunta: “não quereis vós também ir?”
……..Nessa passagem Jesus foi muito enérgico, alguns sugerem que foi agressivo, quando por exemplo, disse que quem não comer de sua carne e beber de seu sangue não teria parte com ele, ou seja, no aconselhamento e na pregação foi firme e contumaz, mas deixou a decisão de segui-lo a cargo da multidão e dos discípulos, sob pena de absolutamente ninguém dar ouvidos ao Mestre e, conseguintemente, deixar de segui-lo e não levar o evangelho as nações através dos limites geográficos e temporais.
……Desde os filósofos gregos na Ágora até aos grandes discursos modernos não há paralelos na história, onde milhares de pessoas simplesmente se levantam e deixam o orador com apenas alguns gatos pingados, e ainda, os discípulos deixam claro que só não foram também porque não havia outra opção. Que momento tenso… ao mesmo tempo que sereno! O exemplo dos “gatos pingados” de Jesus é único: independente se você é pró ou anti-cristianismo, ninguém pode negar: eles mudaram o mundo. Tudo isso porque Jesus não ultrapassou os limites naquela tarde.
……..Em uma tragédia que vários são os fatores que descarrilhados levam a ruína, ao contrário, vários procedimentos planejados e executados corretamente, levarão também ao melhor resultado possível. Penso que assim deve ser o aconselhamento, cheio de: sabedoria, conhecimento, firmeza, serenidade, e, sobretudo: liberdade! Enfim, se os primeiros passos forem dados acertadamente, ainda que deixemos os aconselhados livres, alguns escolherão acorrentarem-se com elos de amor e servirem àquele que é todo o amor que houver nessa vida.
…….Cristo nunca ultrapassa os limites. Viva o Eterno! 

© Lucianno Di Mendonça
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[Texto que compõe as provas para o aproveitamento de créditos para o curso de bacharel em Teologia na Faculdade Teológica Sul Americana em Londrina]

ESPIRITUALIDADE CRISTOCÊNTRICA

Christ-Carrying-The-Cross-1564                            Pieter the Elder Bruegel: Christ Carrying the Cross 1564

A alguns dias, vindo de Goiânia sentido ao interior de Goiás, onde moro, conversava com um amigo sobre a dificuldade que os cristãos enfrentam quando a centralidade de Cristo na espiritualidade atual. Apesar de não ser cristão, meu amigo frequenta reuniões evangélicas a mais de 50 anos, mas nunca entendeu o evangelho puro e simples conforme a Bíblia o apresenta. Dizia-me que agora, “finalmente” encontrou um lugar, uma religião em que se fala de caridade, amor ao próximo, família, atualidades e temas “relevantes”, e melhor, não fica falando das “bobagens” da Bíblia e que Jesus morreu para nos salvar. Tentava me convencer que minha pregação é ultrapassada demais, radical demais, bíblica demais, que eu devia ter como referencia certo pastor televisivo que tirou o bigode que ensina sobre “família e temas atuais”. Por outro lado, tentei lhe mostrar como tirar Jesus do centro da Bíblia é uma desonestidade espiritual e intelectual com as Escrituras, pois, esta tem uma harmonia, uma linha racional clara, um contexto imediato e geral, onde o foco principal do livro sagrado do cristianismo é a pessoa de Cristo, e este crucificado. Sair desse foco é constituir-se falso profeta, falso pastor, falso pregador. Dizia-lhe que a questão não é a pessoa falar de família, passos para vitória, como conquistar bênçãos financeiras e espirituais, para isso, basta o “pastor” se tornar um palestrante motivacional, militante político, professor, membro de ONG, do Lions, Rotary, etc. Tudo isso é legítimo, e muitas dessas atividades contribuem com a sociedade, mas, jamais essa pessoa poderia abrir a Bíblia, ler um texto e, dizer que está ensinando o cristianismo em nome do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.

Isso me fez lembrar de duas frases, uma de Martinho Lutero, outra de Billy Graham, respectivamente: A Bíblia não é nem passada, nem moderna; a Bíblia é eterna”; e, “a Bíblia é mais atual do que o jornal que irá circular amanhã”. Paulo alertou a Timóteo o que aconteceria nos últimos tempos:

Sabe, porém, isto, que nos últimos dias sobrevirão tempos penosos, pois os homens serão amantes de si mesmos, gananciosos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a seus pais, ingratos, ímpios, sem afeição natural, implacáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando-lhe o poder (…) sempre aprendendo, mas nunca podendo chegar ao pleno conhecimento da verdade. (1Tm 2.1-5, 7)

Estamos falando de uma dificuldade atual, mas historicamente, esse quadro vem se desenhando ao longo dos séculos, não irei buscar tais referencias para não sair da clareza e objetividade pedida para o texto. Apenas lembrar dois pontos mais recentes:

  1. Revolução Industrial – a efervescência econômica e industrial do séc. XVIII influenciou a cultura ocidental e aos poucos as mentes das pessoas foram sendo moldadas em função do materialismo, indistintamente de classe social. Apenas para citar um exemplo, outro dia, um professor e coordenador de um curso que faço, disse que as pessoas devem escolher suas profissões de acordo que aquilo que mais vai lhes render dividendos, e olha que é uma professor universitário.
  1. Neopentecostalismo – a partir da segunda metade do séc. XX, movimentos religiosos, especialmente evangélicos, começam ganhar notoriedade ensinando que, se a pessoa é filha de Deus, logo, deve fazer por merecer e requerer o melhor de Deus para essa vida, entenda “melhor” como acúmulos e ostentação de riquezas materiais. Tal movimento, no início – como disse o filósofo Sérgio Portella, partia da máxima “somos bons porque somos poucos”, agora mudou para “somos bons porque somos muitos”.

Ano passado fiz 15 anos de caminhada cristã. Os primeiros 10 anos foram tentando aprender o que a Bíblia diz sobre Jesus com pastores perversos que estavam mais preocupados com seu bem estar, conquistas materiais, crescimento numérico e financeiro de sua igreja, alguns até bem intencionados, mas ignorantes. Sou um sobrevivente de uma guerra religiosa e covarde que mata espiritualmente milhões de pessoas no Brasil. O cristianismo tupiniquim majoritariamente está sem Cristo. A cruz virou artigo de moda, acessório de espiritualidade mórbida, relicário de ídolos vazios. Há uma expressão em latim, dita por Erasmo de Rotterdam representando o Renascimento, e dita igualmente por Reformadores como Lutero: ad fontes, que significa: “às fontes”. Veja o início do Salmo 42: “Assim como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus!” Correntes das águas na Vulgata Latina é ad fontes, ou seja, o salmista suspira é pela FONTE que dá acesso a Deus. Se um cristão suspira pelo Eterno, igualmente suspira pela maravilhosa e assombrosa Palavra de Deus. O que sair dessa relação não passa de emocionalismo pedante, piegas, tosco e raso.

E qual é o centro das escrituras? Qual é a maior revelação do amor de Deus? Deixemos Alan Brizotti em seu livro Identidade Cristã citando outros autores dizer:

“A cruz é o símbolo da fé cristã, da igreja cristã, da revelação de Deus em Jesus Cristo. Aquele que compreende corretamente a cruz compreende a Bíblia e compreende a Jesus”. (p. 160)

E Brizotti continua fazendo referência a outro escritor:

“Na teologia histórica cristã a morte de Cristo é o ponto central da história. Para lá todas as estradas do passado convergem; e de lá saem todas as estradas do futuro”. (p. 160)

 Não sem razão Jesus disse: “se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, do seu interior correrão rios de água viva.” Numa época onde o ateísmo militante é uma das ‘religiões’ que mais cresce no Brasil. Num tempo onde o humanismo, materialismo, teologia da prosperidade, autoajuda religiosa, liberalismo teológico, pós-modernismo e pós-cristianismo imperam e atacam o cristianismo ortodoxo por todos os lados, voltarmo-nos para a espiritualidade Cristocêntrica e fazer voz com os poucos que ainda guardam a palavra do testemunho de Deus é vital para cumprirmos nossa missão de pregar o EVANGELHO DE CRISTO a todas as nações.

© Lucianno Di Mendonça
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[Texto que compõe as provas para o aproveitamento de créditos para o curso de Teologia na Faculdade Teológica Sul Americana em Londrina]

VOCÊ É SANTO LUTANDO PARA NÃO PECAR OU PECADOR LUTANDO PARA SER SANTO?

unfair_fight Ontem no seminário teológico, alguém suscitou essa pergunta. Posteriormente, a Luciana a publicou no facebook, o que gerou inúmeros comentários, cada um contribuindo com sua opinião. O que você acha?

Filosoficamente, quando você restringe uma pergunta em apenas duas opções, há possibilidade de incorrer em erro, pois, pode ser que a resposta não seja nenhuma das duas. Essa questão nos encaixota induzindo apenas marcar com “x” como em múltipla escola, e não pensar que pode haver outras perguntas e, portanto, outras respostas. E ainda, de acordo com a sintaxe, inconscientemente, o que fica em nossa cabeça é a palavra “lutando” deixando em segundo plano as palavras “santo” e “pecador”.

Respondendo a pergunta: não sou nenhum dos dois. Tudo bem que há situações que teremos várias escolhas, noutras duas, ou apenas uma, mas no caso em questão não sou nem “santo lutando para não pecar”, nem “pecador lutando para ser santo”.

Ainda que longe do ideal, pois é uma luta perdida antecipadamente, a primeira opção faria mais sentido. Mas a segunda é um desastre total e nega a graça de Deus, as religiões são mãe e pai desta expressão. Mas abaixo vou argumentar que há outra possibilidade além das que foram propostas.

A Bíblia diz que todos somos pecadores. A Bíblia também fala que quem está em Cristo é santo. Isso é uma contradição? Não. Primeiro que quem não está em Cristo não pode ser santo. Segundo, santidade não é o contrário de pecado. Mas o contrário de santo é profano e o contrário de pecado é perfeição, ou seja, alguém pode não ser profano e ser imperfeito ao mesmo tempo. Como disse Agostinho e mais tarde reforçado por Lutero: simul justus at peccator (ao mesmo tempo justo e pecador). Sabendo os contrários das palavras santo e pecado e do que Agostinho e Lutero disseram, penso que afirmar “ser ao mesmo tempo santo e pecador” é só uma questão de lógica. Se puder formular uma frase seria: “sou declarado santo entendendo que Cristo venceu o pecado em mim”. Esta é a terceira opção, e fico com ela. Pode parecer que não faz diferença, mas faz. Para quem quer apenas um resposta rápida pode parar a leitura por aqui. Valeu. Até logo. Abraço.

Pesquisadores da Austrália e Canadá[1] descobriram uma bactéria que por sua secreção pode através de reações químicas produzir ouro. Os estudos apesar de não serem conclusivos, estão avançados, e em algum tempo, estudiosos estão otimistas em futuramente produzir quilos e quilos de ouro diariamente a partir dos excrementos de uma bactéria pra lá de especial. Pense: se quando essa bactéria obra produz ouro, imagina o que pode fazer noutras atividades menos “sujas”. Se esse ouro vai ter cheiro não sei, mas se tiver será muito agradável e se feder quem se importaria? E quanto ao homem, pode produzir algo de bom? Não! O fruto de suas melhores obras, justiça e “santidade” a Bíblia diz que para Deus são como trapos de imundície. Se as melhores e mais cheirosas obras do homem são imundas, imagine as piores.

A santidade não deve ser entendida como algo intrínseco ao homem, como se pudesse produzir bondade a partir dele mesmo. Quanto ao pecado Jesus disse: “quando vier o Consolador convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo” e continua “do pecado porque não creem em mim”. Ou seja, o problema fundamental do pecado está relacionado em rejeitar Jesus como Senhor. A santidade está relacionada ao conhecimento de Deus.

Uma pessoa que não tem a mínima noção do Evangelho, não sabe quão miserável é, quão morta está, não sabe o propósito da morte e ressurreição de Cristo, não entende a graça soberana, ao ver essa pergunta, simplesmente escolhe se é “santo lutando para não pecar” ou se vai estar do lado dos “pecadores lutando para serem santos”, e fica por isso mesmo. E tudo isso a partir de seus próprios méritos, esforços e justiça. E é exatamente isso que a massa católica e evangélica está tentando causar em seus respectivos seguidores. Ou seja, uma lambança reproduzindo um simulacro de santo-do-pau-oco misturado com pecador piedoso.

Ninguém pode ser mais santo que foi ontem, nem mais santo que seu próximo, nem menos santo que qualquer “santo” vivo ou morto, porque a santidade é proveniente do SANTO e toda d’Ele. A partir do momento que entendo a mensagem da Cruz, depositando em Cristo minha confiança e esperança, aos olhos de Deus não posso ser nem mais nem menos santo, nem ser mais ou menos pecador. Sou apenas simul justus at peccator, ao mesmo tempo justo e pecador. Veja o que em Hb 10:10 diz:

1356034“Pelo cumprimento dessa vontade fomos santificados por meio do sacrifício do corpo de Jesus Cristo, oferecido uma vez por todas.” 

Interessante que normalmente associamos o sangue de Jesus com a justificação, o que é verdade, mas neste texto diz que fomos santificados por meio do sacrifício do corpo de Jesus Cristo. Observando que o verbo “ir” está conjugado no passado (pretérito perfeito), não ocorre pelos nossos sacrifícios e esforços contínuos presentes ou futuros.

Santidade: diz respeito somente a Deus. Pecado: diz respeito somente ao homem.

Como conciliar isso, melhor dizendo: como reconciliar homem e Deus? O amor de Deus e a resposta. Veja o que diz em 2 Co 5.21: “àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus”. Somente quem não conheceu pecado (Jesus) venceu o pecado. Veja, antes de praticar pecados, sou pecador, isso diz respeito a essência, por isso entender Cristo é mais importante que lutar contra o pecado. Como diz o versículo, só posso vencer o pecado quando “nele” sou feito justiça de Deus.

Quando pratico boas obras, isso é evidência de quem habita em mim que é o Espírito (Santo) e não resultado de quem sou (pecador). Por isso a “luta” se processa na minha mente e não no meu corpo ou nas minhas obras, pois todas elas são más. Quanto a isso vou me retirar por um parágrafo para que o apóstolo Paulo, explique melhor:

“Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim. Assim, encontro esta lei que atua em mim: Quando quero fazer o bem, o mal está junto a mim. Pois, no íntimo do meu ser tenho prazer na lei de Deus; mas vejo outra lei atuando nos membros do meu corpo, guerreando contra a lei da minha mente, tornando-me prisioneiro da lei do pecado que atua em meus membros. Miserável homem eu que sou! Quem me libertará do corpo sujeito a esta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor! De modo que, com a mente, eu próprio sou escravo da lei de Deus; mas, com a carne, da lei do pecado.” (Rm 7.18-25)

Devemos sim lutar para não pecar, e mesmo sabendo que na maior parte das vezes iremos perder (aqui acho que errei, pois Paulo disse que perdia todas), mas se posicionar nessa arena de combate é muito revelador sobre o tipo de coração que temos. Paulo vivia esse embate constantemente: olhar para a absoluta santidade de Deus e enxergar sua absoluta miséria. Mas sua alegria indizível era confiar na justiça substitutiva de Cristo, o Senhor! Ou seja, a luta épica de proporções cósmicas está na dimensão do entendimento da palavra de Deus e conhecimento da pessoa de Cristo, só então vencemos o pecado da ignorância, não por nossas forças e lutas, mas pelo único e exclusivo amor e poder de Deus. Nesse texto Paulo despe a natureza humana tão rudemente que alguns religiosos defendem a ideia que o apóstolo havia escrito isso antes de se converter, mas apenas um pouquinho de interpretação de texto mostra que nesse momento ele já era simplesmente O APÓSTOLO PAULO! Se ele estivesse se tornando “mais santo e menos pecador” bem que poderia dizer isso aqui e se contradizer totalmente, né não?! Veja outra passagem interessante em Hb 9.14:

“quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu como vítima sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência das obras mortas para o serviço do Deus vivo?”

Óbvio que os “declarados santos entendendo que Cristo venceu o pecado em nós” não são amorais, imorais, antiéticos, maldosos, pervertidos, incrédulos, etc, mas seu padrão de conduta em todos os sentidos deve servir como referência, que isso fique claro. Os livros de Romanos, 1 Coríntios e Hebreus nos dão um bom entendimento quanto ao conceito de “ser declarado santo entendendo que Cristo venceu o pecado em nós”. Essa adendo evita que alguns digam: “assim é muito fácil, nada depende de mim? Quer dizer que posso viver dissolutamente e “chutar o pau da barraca”?” Não é isso que estou dizendo, veja Hb 10.29:

“Quão mais severo castigo, julgam vocês, merece aquele que pisou aos pés o Filho de Deus, que profanou o sangue da aliança pelo qual ele foi santificado, e insultou o Espírito da graça?”

Quem não valoriza o preço do sangue derramado em favor de si mesmo, no qual foi santificado, está profanando o sangue da aliança e insultando o Espírito da graça. Isso é terrível, pois, pisar nos pés feridos do Crucificado não é uma boa ideia. Olha quão sensacional é esse texto de Ap 22:11: “Quem é injusto, faça injustiça ainda; e quem está sujo, suje-se ainda; e quem é justo, faça justiça ainda; e quem é santo, seja santificado ainda”. Repetindo: seja santificado ainda, não é santifique-se ainda.

Reconciliação, justificação, regeneração, adoção, santificação e glorificação, são conceitos diferentes que compõem a redenção total do homem, não vamos falar de cada um porque não é o caso. Mas assim como na doutrina da justificação, na doutrina da santificação o principio é o mesmo. Na primeira, nossa justiça se fundamenta na fé no sacrifício e morte de Cristo em nosso lugar, ou seja, como deu entender Paulo e disse Lutero: “não nos tornamos justos, mas somos declarados justos”, dai a expressão tomada emprestada do termo jurídico: justificados. (Rm 3: 24-28). Na segunda doutrina não nos tornamos santos, somos declarados santos pelos méritos da vida de Jesus uma vez que ressuscitamos pela fé para uma nova vida juntamente com ele, daí a expressão santificados.

Pode parecer que é uma diferença mínima entre “ser santo e lutar contra o pecado”, e “ser declarado santo entendendo que Cristo venceu o pecado em nós”. Mas a não observância desse detalhe é que tem feito-nos perder o foco da mensagem central da Bíblia: CRISTO É TUDO! Por isso tantas mensagens “cristãs” de autoajuda, motivação, vitória, amor, perdão, paz, fé, felicidade, mas todas estas mensagens colocam o homem no centro, pensando que a partir dele mesmo pode ser melhor e mais feliz. Essa é a inversão de valores que chamamos de teologia cristocêntrica para teologia antropocêntrica, a última é uma contradição de termos, porém a que mais se prega e se crê por ai.

Alguns podem dizer que não fomos santificados, mas estamos sendo santificados. Essa ideia de estar num processo de santificação por esforços próprios, no sentido de ser “melhor” ou pecar menos, é uma ideia católica romana que os protestantes assimilaram tão bem ou melhor que seus antecessores. O que podemos e devemos agora é como disse Paulo em 2 Co 3.18:

“E todos nós, que com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor, segundo a sua imagem estamos sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito.”

Ao contemplar a glória do Senhor que é a sua Palavra Viva com sinceridade e entendimento, aqueles que são “ao mesmo tempo santos e pecadores”, estão sendo transformados, não é que eles se transformam, o verso termina dizendo: “a qual vem do Senhor”. Esse é o verdadeiro processo de santificação. Ele(a) não se torna mais santo, mas se torna mais humano. Faz-me lembrar uma charge onde o bonequinho orava a Deus dizendo e batendo as mãos no chão e ao peito:

– Senhor sou tão santo! Tão bom, tão melhor e mais inteligente que as outras pessoas! Mas o que faço para ser mais santo? – Seja mais humano. – Deus responde.

Lembra-se quando no primeiro capítulo do livro de Gênesis, Deus disse: “façamos o homem a nossa imagem e semelhança”? Pois bem, quando com a face descoberta comtemplamos como por espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, não é que estamos num processo de divinização por nossa capacidade, mas num processo de humanização pelo poder de Deus. Quanto mais conhecemos a Deus, mais homem e mulher nos tornamos, e se isso não estiver acontecendo é porque estamos multiplicando apenas religião hipócrita ou filosofia de boteco, bestializando-nos cada vez mais, tornando-nos intolerantes, julgadores, achando-nos mais conhecedores, capazes e melhores que os outros “pobres ignorantes”.

O processo de santificação pode também ser entendido por processo de humanização. Em nosso inconsciente acreditamos que quanto mais santificados somos, mais anjificados nos tornamos, mais isso não é verdade. Na Teologia Sistemática santificação é o processo pelo qual nos tornamos semelhantes a Cristo. Pergunto: vamos tornando-nos semelhantes a natureza do Cristo em sua divindade sem pecado ou em sua humanidade sem pecado? Não tenho dúvidas que esse processo se dá para a humanidade de Cristo, senão quanto mais “santos” mais “deuses” nos tornaríamos. E o que achamos ser um processo de santificação pode na verdade ser um processo de bestialização. Veja Ef 4.13,14:

Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo. Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina, pelo engano dos homens que com astúcia enganam fraudulosamente.

Esses dois versículos desmontam essa ideia de ser “mais santo”, pois, diz que a medida que conhecemos o Filho de Deus (não diz ser menos pecador), chegamos a homem perfeito (não diz santo perfeito), e finalmente infere claramente que estamos num processo para chegar a humanidade de Cristo e não a sua divindade. Isso é deixar de ser menino incostante. De maneira que, quer ser santo? Conheça o Santo. Quer virar homem e deixar de meninice? Prossiga em conhecer o Desejado das Nações. A frase “um santo não é alguém bom, mas alguém que experimenta a bondade de Deus” é muito boa, principalmente por vir de um escritor católico francês do século passado, Thomas Merton.

wonderful-lake-landscape-wallpaperComparo o conhecimento – da santidade – de Deus como um rio incomensurável, você não pode beber toda sua água, mas pode de coração ofegante, dobrar os joelhos vacilantes, apoiar os pés resvalantes e saciar a sede afundando as duas mãos trêmulas e fracas retirando-as cheias de água cristalina e pura. Pode não ir até o fundo a encostar o pezinho em suas profundezas, mas pode fechar os olhos, prender a respiração e entrar de cabeça em sua superfície e deliciosamente mergulhar por sua margem. Mas ao contrário do rio que quanto mais fundo, escuro, sem ar e maior a pressão, em Deus, quanto mais fundo, mais vida, mais claro tudo se torna… e maior liberdade.

Dito isto, pergunto: “você é santo lutando para não pecar ou pecador lutando para ser santo?” ou ainda “declarado santo entendendo que Cristo venceu o pecado em você?” Acha que tem mais opções? A pergunta o encaixota? Ok, medite no assunto e… diga.

Bom, essa é uma discussão milenar, não acho que podemos resumi-la nalgumas frases, nem achar que se esgota e encerra o assunto apenas numa opinião, estou muito longe tanto de enquadrar a questão num artigo, tanto quanto fechá-la na minha mente, assim como, sou um pecador da pior espécie dado o conhecimento que tenho de minha natureza, mas glória a Deus e somente a Ele que nos amou, sofreu, morreu e ressuscitou e vive pelos séculos dos séculos por todos quantos foram designados para assim crer!

Ao Deus que transcende infinitas eternidades, Senhor de ilimitada criatividade, que se humilhou e nos amou incondicionalmente…

© Lucianno Di Mendonça
www.plurais.net

Texto e comentários publicados originalmente em uvasroxas.com em 19/02/2013

O MACHADO DE CRISTO

3712_Ocean-versus-Desert-greened-tree-versus-dry-treeOutro dia perguntei a um amigo se ele está frequentando certa denominação Evan-Jélica (não errei, é com J mesmo, de Jegue).
 Ele respondeu alegremente: – Sim. É uma benção, o pastor é ‘isso e aquilo’, fogo puro, orando nos montes, campanhas, jejuando, Deus operando, milagres, respondendo orações e blá blá blá, pirirí-pororó…
– Escuta! Você quer aprender de verdade ou passar o resto da vida só no oba-oba? – Perguntei.
– Quero aprender. – Meu amigo responde esvaziando-se como uma bexiga.
– Vamos à minha casa, você vai começar com um livro que irei lhe dar. – E a conversa continuou… e melhorou.

Iniciei com esse pequeno diálogo para introduzir onde quero chegar: não adianta participar de reuniões se a pessoa não tem interesse em estudar a Palavra de Deus, assim como, se estiver frequentando um terreiro de babaçuê Evan-Jélico, um milhão de vezes é melhor não ir do que aprender a fazer encantamentos com algum xamã gospel em nome de Gijuis, são feiticeiros intelijumentos ensinando encantos, tele-guiando e encantoando os descantiados do pensamento. Muitas vezes, os tele-guiados descantiados do pensar até saíram da religião Evan-Jélica, mas o Evan-Jelicalismo não saiu deles.
No parágrafo anterior, não disse LER, mas sim ESTUDAR. Ler é para quem está sendo alfabetizado. A Bíblia não é um livro de leitura como se lê Chapeuzinho vermelho tentando se safar do Lobo mau (muitos vão a Bíblia com essa idéia e deixam de ir também), mas as Escrituras é o Livro do Soberano escrito ao homem miserável, por isso o mínimo que podemos fazer é estudá-lo e nele meditar, para somente a partir daí avançarmos na pratica do pouco que aprendemos sobre ELE (e nós). Isso exclui, evidentemente, os analfabetos e quem por algum motivo físico ou mental esteja impossibilitado.

Certo dia estava vendo uma colega na faculdade escrevendo numa lentidão incrível, igual a quando escrevíamos em cartilha, não conseguindo coordenar o raciocínio, escrevendo “mim empresta uma borracha”, “agente somos top”, “eu sou menas falante”, etc. Mas, certo dia, chorando muito veio pedir-me ajuda: “quero aprender, mas não estou dando conta.” Passei-lhe um livro para transcrever para o Word. Resultado após alguns meses e anos: por uma série de motivos melhorou e está alegre, principalmente pela disposição e talento de alguns professores em ensinar, mas tem algo que poucos têm: estuda mais que todos da sala. Por outro lado, conheci um rapaz mais novo que eu, que sabe mais teologia que um dia eu possa vir a conhecer. Perguntei-lhe: “cara, você trabalha o dia inteiro, faz faculdade a noite, que horas você estuda?” Sua resposta: “de madrugada e finais de semana”.
O problema é que 75% da população brasileira é ou analfabeta ou analfabeta funcional, esse último, compreende quem sabe ler e escrever, mas não consegue interpretar textos simples ou fazer uma operação matemática básica, ou seja, apenas 1 em cada 4 entende o que lê. Os analfabetos funcionais estão nas universidades também, isso é uma vergonha total!
E quando partimos para a religião Evan-Jélica, o problema vêm a galope, os analfabetos funcionais estão nos púlpitos e, para piorar, muitos de seus “pastores” e “líderes” ensinam exaltando a anti-inteligência, anti-racionalidade, anti-cristianismo autêntico, estimulando a jumentalidade. Claro que há exceções, mas entenda como exceção e não como regra. É muito fácil identificar uma pessoa que não valoriza o conhecimento, mesmo que seu discurso não admita: nunca os iremos ver indicando um livro, falando de um filme que estimule a cultura, falando de uma letra de música que ele(a) ache inteligente, chamando atenção para alguma filosofia interessante, falando das Sagradas Letras com brilho nos olhos e, quando o assunto parte para esse lado, não tem interesse em prestar atenção, fazer perguntas e aprender.

Quando comecei cursar Letras, senti muita dificuldade com as palavras, termos e conceitos próprios do universo das Letras, até abordar uma de minhas professoras e pedir-lhe ajuda, pois, não estava acompanhando seu raciocínio. Você acha que ela abaixou o nível das aulas para que eu a entendesse? Não. Simplesmente se dispôs a ajudar e disse que isso é natural, com o tempo e dedicação nos estudos, o problema seria resolvido, mas teria que ESTUDAR. Dois anos depois, amadureci um bocado, é muito gratificante, terminar um livro de Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, Dostoievski, sentindo prazer na leitura e, ao final, ter a sensação: entendi um pouco de suas cabeças brilhantes, expandi um pouquinho minha mente! O mesmo processo se dá na Teologia.

Não me interpretem mal, há pessoas que estudam muitíssimo mais que este Zé Ruela que vos escreve, e eles não são melhores que eu, nem quem não estuda é pior que nós, todos são dignos de respeito e admiração, do mais simples ao mais erudito, do mais ignorante ao mais culto. Independente que quem sejamos, desde que estejamos em Cristo, nossa virtude está n’Ele e somente n’Ele.
O argumento que mais ouço quando entro nesse assunto é: “conheço um fulano que conhece a Bíblia como ninguém, mas é mau caráter, malandro, etc.” Primeiro que isso covardia e desonestidade intelectual em não considerar outras variáveis. Segundo, isso é resultado de uma lavagem cerebral trabalhando em função dos poderosos, pois, o dia que o povo tomar conhecimento das coisas, o império religioso começa ruir naturalmente. Terceiro, quantas pessoas em sua comunidade cristã que são tão ruins como o exemplo acima e mal sabem discernir se Filemon está no AT ou NT, ou se Tito é um livro da Bíblia ou um tiozinho que mora na vila? Não é o conhecimento que corrompe o homem, mas seu coração (Jr 17.9), e coração, todos têm, o que vamos fazer dele, e para quem o iremos guardar não está relacionado ao saber que adquirimos, pois, este é neutro em si mesmo.
Em Oseías está escrito: “O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos.” Não que eu esteja com a pá virada, mas o dia em que o Soberano vai virar a pá está chegando, o machado de Cristo está posto a raiz das árvores (Mt 3.10-12).
A questão é apenas uma: vamos parar no tempo, deitarmo-nos na cama ou sofá, assistindo novela, BBB, zapeando no zap zap, navegando no face, publicando fotos no instagram, participando de cultos antropocêntricos evan-Jélicos duas vezes por semana ‘com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar’, ou vamos usar nosso cérebro para a glória de Deus?

© Lucianno Di Mendonça
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HOJE É DIA DE MAQUIAR O MADEIRO?

10151862_838695766146553_4293255005374268132_n[Quadro do pintor Tintoretto, de 1565, por nome de “Crucifixion”]

Quais conteúdos você considera essenciais para a prática de um discipulado eficaz? Essa é outra palavra gasta, desgastada e enferrujada ao longo do tempo. Discipulado, na maioria das vezes, é sinônimo de ensinar ao crédulo sobre as “doutrinas” da igreja, sobre a “visão” da “igreja”, sobre princípios de valores da igreja, sobre um código de conduta moral gospel, mas normalmente, não passa de um intensivo lavatório cerebral em moldar os novos adeptos de acordo com os projetos expansionistas imperialistas de algumas mentes carismáticas que substituíram a centralidade de Cristo por uma agremiação evangélica. Certa vez, participei de um “discipulado”, onde o “pastor” lia uma cartilha da denominação e “pregava” as lições para se tornar um “vencedor”, foi uma das poucas vezes na minha vida que fiquei muito irritado, até não suportar mais e desistir passado de hora.
Para responder quais conteúdos considero essenciais para a prática de um discipulado eficaz volto-me a Richard Baxter, pastor inglês puritano do século XVII, que nos meios da ortodoxia cristã é considerado o mais notável pastor da história do cristianismo pós apostólico. Tal título deve-se ao seu meio poderoso de ensino. Mas que método poderoso era esse? Muito simples: o velho evangelho! Não havia novas visões, DNAs, estratégias, moveres ou quaisquer novas descobertas humanas voltadas para “crescimento de igreja”.
Conta-se que num vilarejo com aproximadamente 2.000 pessoas, com a chegada de Baxter, a rotina e estilo de vida da população foram mudadas radicalmente por sua pregação e pastoreio. Ele e outros irmãos tinham a disciplina de visitar todas as famílias da igreja pelo menos uma vez ao ano. Mas a visita não era somente para tomar cafezinho, saber como estava a família, o trabalho ou aconselhar sobre as dificuldades, decisões a tomar e consolar quanto as perdas da vida, mas sobretudo, certificavam qual era o entendimento que os membros daquela casa tinha da cruz de Cristo, do evangelho, do sacrifício de Jesus, da fé, da graça, da glória de Deus, e para isso faziam perguntas cruciais a cada um.
O corretor ortográfico do editor de texto não reconhece a palavra “discipulado” e sugere a correção para “dissimulado”, interessante que é exatamente isso que o movimento evangélico tem feito: dissimular a cruz de Cristo, maquiar o madeiro. A partir de hoje, quando um pastor ou líder que dissimula disser: “hoje é dia de discipulado”, entenda: “hoje é dia de maquiar o madeiro”. Se não queremos cantar mais: rude cruz, imagine ensinar e viver. A cruz não é uma escultura a ser lapidada, uma boneca e ser maquiada, mas para algo assombroso que devemos apontar enquanto estivermos na estrada.
Enfim, penso que o discipulado eficaz é falar as pessoas sobre tudo que envolve a pessoa de Cristo, bem como, quais as implicações da cruz em nossas vidas, mostrando que quem tem Jesus no coração carrega uma cruz nas costas. O discipulado eficaz continua sendo o ensino do velho evangelho, a velha mensagem, a velha pregação, porém a única (como disse Lutero) que pode estrangular o velho homem aos pés do madeiro e transforma-lo em nova criatura.

© Lucianno Di Mendonça
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[Texto que compõe as provas para o aproveitamento de créditos para o curso de Teologia na Faculdade Teológica Sul Americana em Londrina]