HOJE É DIA DE MAQUIAR O MADEIRO?

10151862_838695766146553_4293255005374268132_n[Quadro do pintor Tintoretto, de 1565, por nome de “Crucifixion”]

Quais conteúdos você considera essenciais para a prática de um discipulado eficaz? Essa é outra palavra gasta, desgastada e enferrujada ao longo do tempo. Discipulado, na maioria das vezes, é sinônimo de ensinar ao crédulo sobre as “doutrinas” da igreja, sobre a “visão” da “igreja”, sobre princípios de valores da igreja, sobre um código de conduta moral gospel, mas normalmente, não passa de um intensivo lavatório cerebral em moldar os novos adeptos de acordo com os projetos expansionistas imperialistas de algumas mentes carismáticas que substituíram a centralidade de Cristo por uma agremiação evangélica. Certa vez, participei de um “discipulado”, onde o “pastor” lia uma cartilha da denominação e “pregava” as lições para se tornar um “vencedor”, foi uma das poucas vezes na minha vida que fiquei muito irritado, até não suportar mais e desistir passado de hora.
Para responder quais conteúdos considero essenciais para a prática de um discipulado eficaz volto-me a Richard Baxter, pastor inglês puritano do século XVII, que nos meios da ortodoxia cristã é considerado o mais notável pastor da história do cristianismo pós apostólico. Tal título deve-se ao seu meio poderoso de ensino. Mas que método poderoso era esse? Muito simples: o velho evangelho! Não havia novas visões, DNAs, estratégias, moveres ou quaisquer novas descobertas humanas voltadas para “crescimento de igreja”.
Conta-se que num vilarejo com aproximadamente 2.000 pessoas, com a chegada de Baxter, a rotina e estilo de vida da população foram mudadas radicalmente por sua pregação e pastoreio. Ele e outros irmãos tinham a disciplina de visitar todas as famílias da igreja pelo menos uma vez ao ano. Mas a visita não era somente para tomar cafezinho, saber como estava a família, o trabalho ou aconselhar sobre as dificuldades, decisões a tomar e consolar quanto as perdas da vida, mas sobretudo, certificavam qual era o entendimento que os membros daquela casa tinha da cruz de Cristo, do evangelho, do sacrifício de Jesus, da fé, da graça, da glória de Deus, e para isso faziam perguntas cruciais a cada um.
O corretor ortográfico do editor de texto não reconhece a palavra “discipulado” e sugere a correção para “dissimulado”, interessante que é exatamente isso que o movimento evangélico tem feito: dissimular a cruz de Cristo, maquiar o madeiro. A partir de hoje, quando um pastor ou líder que dissimula disser: “hoje é dia de discipulado”, entenda: “hoje é dia de maquiar o madeiro”. Se não queremos cantar mais: rude cruz, imagine ensinar e viver. A cruz não é uma escultura a ser lapidada, uma boneca e ser maquiada, mas para algo assombroso que devemos apontar enquanto estivermos na estrada.
Enfim, penso que o discipulado eficaz é falar as pessoas sobre tudo que envolve a pessoa de Cristo, bem como, quais as implicações da cruz em nossas vidas, mostrando que quem tem Jesus no coração carrega uma cruz nas costas. O discipulado eficaz continua sendo o ensino do velho evangelho, a velha mensagem, a velha pregação, porém a única (como disse Lutero) que pode estrangular o velho homem aos pés do madeiro e transforma-lo em nova criatura.

© Lucianno Di Mendonça
www.plurais.net

[Texto que compõe as provas para o aproveitamento de créditos para o curso de Teologia na Faculdade Teológica Sul Americana em Londrina]

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DESCRUCIFICADOS

supernietzsche    “O único Deus em quem eu creio é aquele que Nietzsche, filósofo alemão do século 19, ridicularizou, chamando-o de “Deus sobre a cruz”. No mundo real da dor, como adorar a um Deus que fosse imune a ela?” Essa é a frase que John Stott começa o terceiro capítulo do livro: “Por que sou cristão”. Leitura interessantíssima. Nada novo. Velha, batida e retorcida mensagem: a cruz.
Há algum tempo tenho perguntado a algumas pessoas porque elas são cristãs. É cada resposta, cada pérola, cada “teologia”, gerando-me alguns sentimentos curiosos: medo, indignação, risada, tristeza. No seminário perguntei à alguns colegas, e, foi onde deu vontade de chorar: de dez alunos apenas dois incluíram a cruz em suas respostas, e olha que nenhum dos outros motivos fundamentais pelos quais deveriam ser cristãos o grupo dos oito colegas responderam corretamente.
Queria saber de um cristão “descrucificado”: se a cruz não cabe em sua conversão e cristianismo, onde ela fica além do temporal e geograficamente distante gólgota? Onde está a cruz além de pregada em paredes, moldada em pingentes, estampada em camisetas, representada em símbolos místicos, exposta em relicários religiosos e souvenirs gospels de campanhas de prosperidade?
Lutaram milênios para destruir e aniquilar a Bíblia, não conseguiram. No último século inverteram o jogo, de um lado, o ateísmo militante – que se ramifica em várias vertentes, desacredita e ridiculariza as Escrituras, de outro, os evangélicos que dizem nela crer, mas são muito mais ignorantes de seu conteúdo e sua mensagem principal que as próprias pessoas que dela descreem. Conhecendo os dois grupos, afirmo, sem termos de comparação, os evangélicos estão mais firmes em seu propósito anticristo que qualquer outro grupo. No final das contas, ateísmo “religioso” e a massa evangélica “atéia” vestem a mesma camisa. Isso é espantoso!
Charles Spurgeon disse: “o mais maligno servo de satanás que conheço é o ministro infiel do evangelho”. A teologia descrucificada cria super-homens tolos e não seres humanos cientes de quem são. Teologia da cruz seria pleonasmo, afinal, toda teologia bíblica gira em torno da pessoa de Jesus e este crucificado, contudo, diante de como as “teologias” têm desfigurado o evangelho no Brasil, surge a extrema necessidade que voltemos as Escrituras e, uma vez, retornando, cavar cavar e cavar as Santas Letras com uma pá e picareta nas mãos e uma cruz fincada no peito, para finalmente pregar a Cristo crucificado, escândalo e loucura para os poderosos, sábios e religiosos desse astro chamado Terra.

© Lucianno Di Mendonça
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