CAMPANHA DA MATRACA FECHADA

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Campanha poderosíssima para desimpedir e ficar definitivamente livre “dos caminhos neopentecostais”, “quebrar maldições apostólicas”, “anular palavras proféticas”, fazer um “desenpastoramento total”, “apagar dardos inflamados dos levitas”, sair debaixo da “cobertura espiritual” de manipuladores, “desembaraçar nós cegos” nas mentes feitos por falsos profetas e, principalmente, encontrar o fio da meada do Evangelho puro e simples. Você não pode deixar de participar da novíssima campanha:

Não quer abrir O livro, Feche a Matraca!

Essa campanha não é pra qualquer um. Somente para os fortes na ignorância. Destemidos à Deus. Corajosos em rejeitar as Escrituras. Submissos a falsos profetas. Treme e dá enchurrio só de pensar em confrontar as palavras do “ungido” com as palavras do Cristo. “Espiritual” em amaldiçoar os que saíram do seu guetinho religiozinho. Fiel a tradicionalismo da sua “igreja”.

Você cristão, que não vai ler a Bíblia, bateu o pé, deu birra e disse ao Espírito Santo: “não adianta insistir, não leio, não leio, não leio!” Já que não vai às Escrituras meditar, não vai pesar os ensinamentos que recebe com as palavras do Cristo. Não vai pensar. Diz que crê na Bíblia, mas a palavra inicial, mediana e final em suas decisões é do seu papa gospel. Apenas para você, que quem determina a “visão” de sua “igreja” são os concílios evangélicos denominados “concentração de fé, conferências de poder, milagres, impacto, etc”. Entre o pouco que conhece dos livros sagrados e o muito que conhece das apostilas, jornais e livros de sua religião pagã gospel, vê que há inúmeras contradições grotescas e mesmo assim rejeita a Bíblia em servilismo a ordem do homem pecador e mentiroso. Participe da campanha poderosa: Não quer abrir O livro, Feche a Matraca!

O “propósito é muito forte”, fechando sua matraca vai parar de atrapalhar seus amigos e familiares se converterem ao verdadeiro e puro evangelho. Pare de dizer no futebol que “serve” a Deus. Não fale para as colegas na escola que é cristão. Não solte no trabalho nem de brincadeira que é cristão. Pare de mandar imagens em redes sociais com versículos dizendo: “tudo posso naquele que me fortalece”, “falei com Jesus hoje e você?”, “Sou filho do Rei”, “eu curto Jesus”, “o Brasil é do Senhor Jesus”, “Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos”, “Deus é fiel”. Arranque hoje o adesivo do carro que diz: “sou dizimista” e “presente do Papai”. Quando alguém chorando à sua frente sofrendo de dor, gemendo pela manifestação de algum filho de Deus, não diga que vai lhe apresentar seu super pastor para receber uma superoração. Se não tem condições de ajudar, feche a matraca!

A campanha será de quantos meses forem necessários, para que Deus abençoe a pessoa em ter um encontro com a Palavra de Deus. E não menos importante, não frequente cultos antropocêntricos nesse período (de preferência nunca mais), não participe de reuniões evangélicas individualistas, onde vê-se de tudo, menos o Evangelho puro e simples, onde se fala de tudo, menos do Cristo crucificado e ressurreto!

Bem amigos, gostaria de escrever algo mais lightdiet, gostoso, leve, talvez poético, mas certas coisas que ouço e vejo me dão azia e má digestão, em você não? (em breve, podemos fazer a CAMPANHA DO SAL DE FRUTAS ENO – CONTRA AZIA E HERESIA).

Se alguém se ofendeu com a proposta, provavelmente está no grupo de risco para fechar a matraca, mas, se alegrou e também acredita que a Bíblia continua sendo e sempre será a ABSOLUTA palavra de Deus e que foi reduzida a um mero acessório da última moda gospel com capas teen e comentários “paitriarcas” e apostólicos como produto mercadológico, mande o link da campanha para aquele amigo pinhel que grudou no seu pé igual chulé para te levar à “igreja dele” porque você é um “derrotado” e precisa aprender o caminho para se tornar um “vencedor”… como ele claro [sic].

Ah, como poderia esquecer? Uma campanha tem que ter versículos bíblicos para dar um ar de espiritualidade. A referência bíblica para nossa campanha de poder é: NENHUMA. Já que não vai ler mesmo. Pelo menos assim não fazemos de conta mais uma vez. E antes que alguém pergunte se estou participando da campanha, respondo: a fiz a alguns anos, fiquei um bom tempo calado. Depois que me tornei um “rebelde” ao sistema religioso neopentecostal e suas ramificações noutros lugares de sua (des)teologia (dis)torcida da prosperidade, a minha vida nunca mais foi a mesma. Hoje sou um rebelde e subversivo graças a Deus.

Fale da Campanha da Matraca Fechada a um amigo(a) que está sofrendo de lavagem cerebral e está dando sinais de despertamento (antes disso não adianta) e não sabe o que fazer da vida. Não “quebre a corrente” senão “perde” a benção.

© Lucianno Di Mendonça
www.plurais.net

Texto e comentários publicados originalmente em uvasroxas.com em 24/04/2012

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ESPIRITUALIDADE CRISTOCÊNTRICA

Christ-Carrying-The-Cross-1564                            Pieter the Elder Bruegel: Christ Carrying the Cross 1564

A alguns dias, vindo de Goiânia sentido ao interior de Goiás, onde moro, conversava com um amigo sobre a dificuldade que os cristãos enfrentam quando a centralidade de Cristo na espiritualidade atual. Apesar de não ser cristão, meu amigo frequenta reuniões evangélicas a mais de 50 anos, mas nunca entendeu o evangelho puro e simples conforme a Bíblia o apresenta. Dizia-me que agora, “finalmente” encontrou um lugar, uma religião em que se fala de caridade, amor ao próximo, família, atualidades e temas “relevantes”, e melhor, não fica falando das “bobagens” da Bíblia e que Jesus morreu para nos salvar. Tentava me convencer que minha pregação é ultrapassada demais, radical demais, bíblica demais, que eu devia ter como referencia certo pastor televisivo que tirou o bigode que ensina sobre “família e temas atuais”. Por outro lado, tentei lhe mostrar como tirar Jesus do centro da Bíblia é uma desonestidade espiritual e intelectual com as Escrituras, pois, esta tem uma harmonia, uma linha racional clara, um contexto imediato e geral, onde o foco principal do livro sagrado do cristianismo é a pessoa de Cristo, e este crucificado. Sair desse foco é constituir-se falso profeta, falso pastor, falso pregador. Dizia-lhe que a questão não é a pessoa falar de família, passos para vitória, como conquistar bênçãos financeiras e espirituais, para isso, basta o “pastor” se tornar um palestrante motivacional, militante político, professor, membro de ONG, do Lions, Rotary, etc. Tudo isso é legítimo, e muitas dessas atividades contribuem com a sociedade, mas, jamais essa pessoa poderia abrir a Bíblia, ler um texto e, dizer que está ensinando o cristianismo em nome do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.

Isso me fez lembrar de duas frases, uma de Martinho Lutero, outra de Billy Graham, respectivamente: A Bíblia não é nem passada, nem moderna; a Bíblia é eterna”; e, “a Bíblia é mais atual do que o jornal que irá circular amanhã”. Paulo alertou a Timóteo o que aconteceria nos últimos tempos:

Sabe, porém, isto, que nos últimos dias sobrevirão tempos penosos, pois os homens serão amantes de si mesmos, gananciosos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a seus pais, ingratos, ímpios, sem afeição natural, implacáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando-lhe o poder (…) sempre aprendendo, mas nunca podendo chegar ao pleno conhecimento da verdade. (1Tm 2.1-5, 7)

Estamos falando de uma dificuldade atual, mas historicamente, esse quadro vem se desenhando ao longo dos séculos, não irei buscar tais referencias para não sair da clareza e objetividade pedida para o texto. Apenas lembrar dois pontos mais recentes:

  1. Revolução Industrial – a efervescência econômica e industrial do séc. XVIII influenciou a cultura ocidental e aos poucos as mentes das pessoas foram sendo moldadas em função do materialismo, indistintamente de classe social. Apenas para citar um exemplo, outro dia, um professor e coordenador de um curso que faço, disse que as pessoas devem escolher suas profissões de acordo que aquilo que mais vai lhes render dividendos, e olha que é uma professor universitário.
  1. Neopentecostalismo – a partir da segunda metade do séc. XX, movimentos religiosos, especialmente evangélicos, começam ganhar notoriedade ensinando que, se a pessoa é filha de Deus, logo, deve fazer por merecer e requerer o melhor de Deus para essa vida, entenda “melhor” como acúmulos e ostentação de riquezas materiais. Tal movimento, no início – como disse o filósofo Sérgio Portella, partia da máxima “somos bons porque somos poucos”, agora mudou para “somos bons porque somos muitos”.

Ano passado fiz 15 anos de caminhada cristã. Os primeiros 10 anos foram tentando aprender o que a Bíblia diz sobre Jesus com pastores perversos que estavam mais preocupados com seu bem estar, conquistas materiais, crescimento numérico e financeiro de sua igreja, alguns até bem intencionados, mas ignorantes. Sou um sobrevivente de uma guerra religiosa e covarde que mata espiritualmente milhões de pessoas no Brasil. O cristianismo tupiniquim majoritariamente está sem Cristo. A cruz virou artigo de moda, acessório de espiritualidade mórbida, relicário de ídolos vazios. Há uma expressão em latim, dita por Erasmo de Rotterdam representando o Renascimento, e dita igualmente por Reformadores como Lutero: ad fontes, que significa: “às fontes”. Veja o início do Salmo 42: “Assim como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus!” Correntes das águas na Vulgata Latina é ad fontes, ou seja, o salmista suspira é pela FONTE que dá acesso a Deus. Se um cristão suspira pelo Eterno, igualmente suspira pela maravilhosa e assombrosa Palavra de Deus. O que sair dessa relação não passa de emocionalismo pedante, piegas, tosco e raso.

E qual é o centro das escrituras? Qual é a maior revelação do amor de Deus? Deixemos Alan Brizotti em seu livro Identidade Cristã citando outros autores dizer:

“A cruz é o símbolo da fé cristã, da igreja cristã, da revelação de Deus em Jesus Cristo. Aquele que compreende corretamente a cruz compreende a Bíblia e compreende a Jesus”. (p. 160)

E Brizotti continua fazendo referência a outro escritor:

“Na teologia histórica cristã a morte de Cristo é o ponto central da história. Para lá todas as estradas do passado convergem; e de lá saem todas as estradas do futuro”. (p. 160)

 Não sem razão Jesus disse: “se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, do seu interior correrão rios de água viva.” Numa época onde o ateísmo militante é uma das ‘religiões’ que mais cresce no Brasil. Num tempo onde o humanismo, materialismo, teologia da prosperidade, autoajuda religiosa, liberalismo teológico, pós-modernismo e pós-cristianismo imperam e atacam o cristianismo ortodoxo por todos os lados, voltarmo-nos para a espiritualidade Cristocêntrica e fazer voz com os poucos que ainda guardam a palavra do testemunho de Deus é vital para cumprirmos nossa missão de pregar o EVANGELHO DE CRISTO a todas as nações.

© Lucianno Di Mendonça
www.plurais.net

[Texto que compõe as provas para o aproveitamento de créditos para o curso de Teologia na Faculdade Teológica Sul Americana em Londrina]